Hoje desisto da tua ausência.
E assim te encontro,
Eu,
Numa habitualidade inexplicavelmente impassível,
Aflito como quem capitula à batalha final
Morto de tanto não fazer poesia,
E hoje, desistido de tudo, te encontrei.
(E hoje, sossegue, não hei loas à minha própria inércia,
Nem à aflição, tampouco à definitiva esterilidade que me toma)
O meu louvor, se é que me entendes
É que a tua existência faz talvez o meu retorno
À minha própria.
E desde já perdoa-me, e não consideres qualquer das minhas palavras
Mais que um desabafo, eu que na tarde de mim
Assim, já fraco de batalhas, morto de tanto não dar fruto
De mim mesmo, vazio, vazio, vácuo da irresponsável busca do não,
Descasado do que há de bom em tudo, descasado da virtude,
Frio, seco, desbotado, esturricado, infértil, torpe
É assim que me encontras
E assim não tomes, por favor, sequer destas palavras.
Mas não há que lamentar com isso: O meu conceito de existires
É talvez o retorno de tudo,
Se tu és, então talvez haja volta
Talvez não haja mais desapontar-me tanto a vida
Talvez haja ainda acreditar
Só porque sinto dentro de mim que tu existes.
E não é porque te espelha a doçura
De uma alma luzente, alma grávida de virtudes que já esqueci
Ou olhos que traduzem respeito e pureza tantos que desconcertam,
Tampouco é pela boca que balbucia afetos como plumas,
Não é por nada disso que tu existes tanto em mim.
É, sim, pelo que viver tudo isso me traz.
Se me volto, e te vejo, e o teu vestido tremula ao mesmo vento
Que me impele a essa direção tão tua
Isso te faz em mim não a visão
Mas a direção que de ti faz vereda
E me revela o cansaço de tanto não tê-la caminhado.
Vereda, minha vereda, o teu beijo de virtude me espera
Ao teu final, e assim percorro-te
Sofrendo docemente a esperança do teu beijo.
Caminho que me traz à tona, resgata-me
Desta noite tão profunda, de caminhos tão diversos
Conduz-me a esse amor que tanto esqueci.
Vereda iluminada, traz-me de volta
Desta insistência, tão minha, de inexistir.