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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Fiscal Zen

". . . Deixarás tudo aquilo que te agrada
mais profundamente; é esta seta a tal
logo no arco do exílio disparada.
E provarás como é falto de sal
o pão d' outros, e como é dura estrada
subir e sair pelas escadas de al. [de outrem]"
(Dante Alighieri, "Divina Comédia")



Homero é um auditor-fiscal. Ele cuida da seleção e inquisição dos passageiros ao desembarcar. Não foi por acaso que me utilizei do termo. O processo alfandegário, quando não bem conduzido, pode render uma verdadeira caça às bruxas, instigando, nos nossos queridos passantes, os mais diversos (res)sentimentos, que variam desde a simples insatisfação, até a sensação inconfundível de que todas as injustiças do Universo provêm do singelo piscar de uma setinha vermelha, acima de suas cabeças.

Mas Homero está ali para quebrar todos esses paradigmas. Como fiscal "Zen" que é, mostra-nos o quão natural pode ser passar por uma barreira como aquela. A seta não aponta mais para o que parecia ser a mensagem dantesca do "a vós que entrais, deixai toda esperança". O piscar desta seta passa a ser um suspiro de alívio, mesmo para os que nela entram, por sentirem-se prestando um serviço à nação, em um exercício de justiça.

O que quer que pensem, Homero os faz pensar coisas do bem. Mas como ele o faz? Antes disso, importa compreender o sentido da palavra "Zen".

O Zen (também conhecido como Zen-budismo) é o nome japonês da tradição chinesa Chan (ideograma 禅, que significa profunda e intensa meditação contemplativa). Na origem do Zen-budismo está o famoso "Sermão da Flor".

Reza a lenda que, em um de seus discursos, o Buda permanecia em completo silêncio. Os seus discípulos não entendiam o sentido daquele discurso silencioso. Foi quando seu mestre lentamente levantou uma flor.

Seus pupilos tentavam, sem sucesso, interpretar o significado daquele gesto. Mas apenas um deles conseguiu, quando, também em completo silêncio, olhou profundamente para a mesma flor, e obteve um entendimento especial, além do que as palavras poderiam exprimir. Nesse momento, o Buda sorriu para ele, reconhecendo o entendimento adquirido diretamente a partir da sua mente, para a mente do seu silencioso interlocutor.

No nosso dia-a-dia, tudo está bem definido e escrito. Procedimentos, gestos e até mesmo expressões, atitudes. Como se portar diante do passageiro, do contribuinte, do cidadão. O Zen consiste em possuir um conhecimento que não pode ser escrito, ou documentado. Conhecimento que não consiste em palavras, mas que pode estar no simples gesto de erguer uma flor, de dispensar um sorriso, um aperto de mão.

Homero sabe de tudo isso. Quando os passageiros começam a reclamar, a assumir posturas desafiatórias, arrogantes, vexatórias, Homero se mantém impassível. Não muda seu tom de voz, tampouco seus gestos. Sabe do seu papel. Seu papel não é lutar e sim conduzir. E só uma mente bem treinada, pura e contemplativa é capaz disso. Homero sorri para o passageiro. Mostra-lhe a credencial. A estrela aduaneira, nesse momento, parece mesmo com uma flor.

Daí em diante, o semblante do nosso viajante começa a se modificar. As trevas, que outrora sombreavam sua face, começam a dar lugar a uma luz nunca antes vista. Acende-se o sentimento de compaixão, não aquela compaixão egoísta, que nos instiga a dar o malfadado "jeitinho" naquilo que não tem jeito. Há sim uma compaixão universal, um sentimento de que uma nação é feita de nós e não de eus. O sentimento de que fazemos parte de um Todo e, que se nos furtarmos à nossa parte, este Todo estaria fatalmente incompleto. Esse é o sentido real da palavra justiça.

E assim vamos, discípulos do mestre Homero, tentando transmitir um pouco da essência Zen a nossos afobados e cansados compatriotas. Eu tenho muito o que aprender, com ele e muitas outras pessoas de natureza ímpar, que habitam o seio de nossa Alfândega.