
Numa Alfândega, é sempre bom estarmos preparados para tudo. Emerson é um funcionário preparado por natureza, e pelos anos de vivência em outros aeroportos. É bom que seja assim, seja com Emerson ou qualquer outro. Aqui no Fim do Mundo, recebemos, entre tantos, um voo vindo de Portugal e conexões de toda a Europa. E é certo que cada um dos duzentos e sessenta e um passageiros desse voo pode estar nos trazendo uma surpresa. Uma surpresa nem sempre agradável.
Uma bela mulher, acima de qualquer suspeita, chegando de Barcelona. Aperta o botão. A setinha que lhe acende ao topo, refletindo um escarlate difuso nas suas mechas castanho-aloiradas, parece ter algo a nos dizer. O bip, que acompanha a seta, soa numa coma abaixo de mi bemol, o que dói aos ouvidos bem treinados de um músico como Emerson. Mas ela, impassível, dirige-se tranquilamente à esteira de raios-X, como quem aguarda com as compras no caixa de saída de um supermercado.
Rosiany, uma operadora relativamente novata na época, mas nem por isso menos perspicaz, nos dá os sinais.
- Emerson, dá uma olhadinha, por favor. Parece granulado, mas não está muito nítido.
O funcionário da portaria faz sinal para a passageira pôr a mala na bancada. Emerson inspeciona cuidadosamente a bagagem, tentando não olhar para o decote generoso da moça.
- A senhora passou quanto tempo na Espanha?
- Vinte e cinco dias, senhor.
Uma conversa casual sempre acaba por aproximar seres de planetas tão diversos como o passageiro e o fiscal. E isso é importantíssimo, ajuda-nos a descobrir uma série de coisas. Mas o que Emerson iria descobrir naquele momento não estava na entrevista. Estava no fundo. Seria revelado por uma delicada incisão de um estilete. Como bom cirurgião, Emerson retira o objeto, o qual estava escondido no fundo falso da mala.
- O que vem a ser isto, senhora? - indaga Emerson, com a delicadeza de um camareiro de hotel. A bela jovem não responde, apenas contempla com ar assustado um embrulho retangular, envolto em papel carbono.
Emerson desfaz o pacote, revelando uma quantidade de papeizinhos e comprimidinhos coloridos, com cartinhas de baralho microscopicamente estampadas, além de uma massa disforme, de um cheiro estranho.
- Será que é o que estou pensando? - emenda. A moça continua em silêncio, mas faz um gesto afirmativo com a cabeça.
- Olha, a senhora não precisa ter medo de me contar o que tem aqui. Precisamos saber, afinal o que a senhora trouxe. Confie em mim.
Emerson parecia mais um psicólogo do que um fiscal. Aos poucos, a moça foi contando tudo sobre o que trazia. Mil e quinhentos comprimidos de ecstasy. Oitocentos papéis de LSD. Duzentos gramas de skank [Que, para mim, até o dia em que soube do ocorrido, não significava nada além da banda musical].
- Infelizmente a senhora está detida. Será encaminhada à polícia federal. É possível que seja presa.
Naquele momento, a mulher chorou. Fichas de telefone me parecem algo um tanto obsoleto, mas, ao que tudo indica, a dela caiu. Atuar como mula em tráfico internacional de drogas é, por definição, uma bela fria.
Emerson segue conversando com a moça, num misto de consolo e conscientização daquele indivíduo [a moça] sobre sua real situação. Tenta falar de amenidades.
- Mas e o negócio, é bom mesmo? Dá barato? Qual a sensação?
- Você fica assim: Ouuuu, ouuuuu, ouuuu. - A mulher dá voltas com o indicador em torno da orelha. Naquele instante, nem parecia que tinha acabado de receber voz de prisão.
No final, a polícia chega, chutando o balde. Agora, serão eles que entrevistarão a mulher. Nesse momento, a Alfândega sai de cena e nossos colegas policiais dão continuidade, fazendo com que seja cumprida a Lei. Emerson comparece às audiências, como testemunha do processo.
Uma bela mulher, acima de qualquer suspeita, chegando de Barcelona. Aperta o botão. A setinha que lhe acende ao topo, refletindo um escarlate difuso nas suas mechas castanho-aloiradas, parece ter algo a nos dizer. O bip, que acompanha a seta, soa numa coma abaixo de mi bemol, o que dói aos ouvidos bem treinados de um músico como Emerson. Mas ela, impassível, dirige-se tranquilamente à esteira de raios-X, como quem aguarda com as compras no caixa de saída de um supermercado.
Rosiany, uma operadora relativamente novata na época, mas nem por isso menos perspicaz, nos dá os sinais.
- Emerson, dá uma olhadinha, por favor. Parece granulado, mas não está muito nítido.
O funcionário da portaria faz sinal para a passageira pôr a mala na bancada. Emerson inspeciona cuidadosamente a bagagem, tentando não olhar para o decote generoso da moça.
- A senhora passou quanto tempo na Espanha?
- Vinte e cinco dias, senhor.
Uma conversa casual sempre acaba por aproximar seres de planetas tão diversos como o passageiro e o fiscal. E isso é importantíssimo, ajuda-nos a descobrir uma série de coisas. Mas o que Emerson iria descobrir naquele momento não estava na entrevista. Estava no fundo. Seria revelado por uma delicada incisão de um estilete. Como bom cirurgião, Emerson retira o objeto, o qual estava escondido no fundo falso da mala.
- O que vem a ser isto, senhora? - indaga Emerson, com a delicadeza de um camareiro de hotel. A bela jovem não responde, apenas contempla com ar assustado um embrulho retangular, envolto em papel carbono.
Emerson desfaz o pacote, revelando uma quantidade de papeizinhos e comprimidinhos coloridos, com cartinhas de baralho microscopicamente estampadas, além de uma massa disforme, de um cheiro estranho.
- Será que é o que estou pensando? - emenda. A moça continua em silêncio, mas faz um gesto afirmativo com a cabeça.
- Olha, a senhora não precisa ter medo de me contar o que tem aqui. Precisamos saber, afinal o que a senhora trouxe. Confie em mim.
Emerson parecia mais um psicólogo do que um fiscal. Aos poucos, a moça foi contando tudo sobre o que trazia. Mil e quinhentos comprimidos de ecstasy. Oitocentos papéis de LSD. Duzentos gramas de skank [Que, para mim, até o dia em que soube do ocorrido, não significava nada além da banda musical].
- Infelizmente a senhora está detida. Será encaminhada à polícia federal. É possível que seja presa.
Naquele momento, a mulher chorou. Fichas de telefone me parecem algo um tanto obsoleto, mas, ao que tudo indica, a dela caiu. Atuar como mula em tráfico internacional de drogas é, por definição, uma bela fria.
Emerson segue conversando com a moça, num misto de consolo e conscientização daquele indivíduo [a moça] sobre sua real situação. Tenta falar de amenidades.
- Mas e o negócio, é bom mesmo? Dá barato? Qual a sensação?
- Você fica assim: Ouuuu, ouuuuu, ouuuu. - A mulher dá voltas com o indicador em torno da orelha. Naquele instante, nem parecia que tinha acabado de receber voz de prisão.
No final, a polícia chega, chutando o balde. Agora, serão eles que entrevistarão a mulher. Nesse momento, a Alfândega sai de cena e nossos colegas policiais dão continuidade, fazendo com que seja cumprida a Lei. Emerson comparece às audiências, como testemunha do processo.



