quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Eixos de Mim

Ei-las cá adiante, ambas,
Supremamente macias e ainda assim mudas de todo,
Indesculpavelmente tuas, coxas essas
Que me percorrem
Com a claridade da tez, um gosto que me lembra a mim
Sabor de todos os atos que competem à escassez da minha infinitude
E que jamais serão consumados senão na nossa doentia verdade.


Mas eis que ali continuam, ambas
Cansadas de rima, bambas de mim que estão,
Pedindo perdão por não serem minhas, e ainda assim as julgo minhas de todo
Pois se são pernas da alma, ou não são mais que O Caminho, definitivo e ainda assim impercorrido
Como uma autovia que me guia, dirigindo-me inexoravelmente ao túnel de nós dois
Onde não há freios,
Onde eu e meus milhões de passageiros desejam mais que ardentemente, apenas e tão somente
O beco sem saída da tua maternidade.


Ei-los ali, esparramados, desejando o meu desejar deles
Consubstanciados na fluidez, quentura e turbidez com que te inundo
Avassaladoramente,
Nos versos deste poema ruim, mas que imerge na tua beleza conquanto te preenche,
Dona que és dos eixos de mim.

Retomando...

Pessoal,

Peço desculpas pela breve ausência. Meu notebook estava dodói, acho que a Lorena pegou nele e entrou em algum site esquisito, desses de joguinhos pra crianças e - pimba, um vírus ou programa mal feito se apoderou do bichinho.

Reinstalei-lhe o Windows, dei-lhe umas duas pílulas de antivírus, compressa quente, chazinho e vamos ver no que dá.

Pois bem. Vamos voltar ao bom nível dos acalorados debates que tomam lugar nesta badalada Alfândega.

E tenho dito.

domingo, 23 de novembro de 2008

Entendendo as Mulheres - ou não

Começo de mais um novo plantão. Chegando ao aeroporto, sinto um clima de emoção, de despedida, de nostalgia. Os abraços, as partidas e as chegadas fazem-me sentir que, na minha fria missão, existe um toque de emoção. E lidar com o emocional das pessoas é dificílimo. Quando se trata de mulheres, então, é quase impossível.

Lido com mulheres de toda sorte. Passageiras, fiscais, amigas. Todas muito queridas. Todas, de uma forma ou de outra, encharcadas de paixão. A mulher é um ser que encerra muita emoção, muita vida. É a missão delas. Homens que somos, nossa missão é amá-las. Eu tento um pouco mais que isso. Tento entendê-las. Se vou bem na minha missão, aí já é uma outra história.

Já fui marido, namorado e amigo de várias mulheres que passaram (e muitas que permaneceram) na minha vida. Também sou pai de uma menina-mulher (agora são duas). Todas elas me deixaram e me deixam algo de si, e me ajudaram a formar a experiência que tenho, parte do homem que sou. E toda essa bagagem me ajudou a entender alguns aspectos da alma feminina.

Por que as mulheres se apaixonam? O que as faz amar e desamar com tanta facilidade? Qual o porquê da paixão e, por vezes, da obsessão por alguém que não as ama? Por que confundem tanto, paixão com satisfação, amor com poder? São perguntas que me martelarão por todo o sempre. Mas a respeito dessas e de outras questões, não posso mais que elaborar teorias, como a que se segue.

Minha experiência de homem, essa me ajudou a entender que cada mulher é (ou são), na verdade duas. Pois bem. Vamos chamá-las de Cléo e Maria Helena.

A Cléo é a personalidade escondida por baixo da alma (pra não dizer, da saia) de todas as mulheres. É ela quem instiga e provoca comportamentos obscenos, lascivos. Ela é bem objetiva - Sabe exatamente o que quer e o que a satisfaz. Ela busca músculos, prazer, poder, satisfação de um desejo líquido. Desejo que ela imprime na alma de sua dona, Maria Helena. Cléo não se importa com os safanões que leva de Maria Helena. Ela é corpo e volúpia, e até mesmo ser repreendida a instiga a desejar mais e mais.

Já sua dona, Maria Helena, essa é pura razão e comedimento. Ela tenta, a todo custo, controlar e impor-se à frente dos desejos de Cléo. Não que Maria Helena não tenha desejos. Ela os têm sim, mas são de outra ordem. Maria Helena deseja completude, quer a complementaridade entre o racional e o emocional. Enquanto Cléo quer dizer sim, o que ouvimos de uma mulher, na verdade, é sempre o não de Maria Helena. Ela está sempre pondo à prova os sentimentos dos seus parceiros. Enquanto Cléo quer satisfação imediata, Maria Helena quer estabilidade, quer as emoções sob controle a longo prazo. Para isso, tenta a todo custo apaziguar Cléo.

Como não poderia deixar de ser, Maria Helena e Cléo têm amantes distintos. Enquanto a primeira ama Júlio César, a segunda ama Marco Antônio. Eles são, como elas, complementares. Enquanto Júlio César é razão, imposição e poder, Marco Antônio é força e virilidade. Júlio César não é como Teodoro, marido pacato de Dona Flor no romance de Jorge Amado. Ele domina justamente pela lógica, pela completude, não é passivo. Já Marco Antônio domina pelo prazer. Ele é impulsivo, não refrea seu ímpeto de homem. Mais ou menos como Vadinho, o marido-fantasma de Flor.

Como reza essa teoria (que na verdade não é minha, recebi ajuda de uma autora maravihosa, para compilá-la) homens e mulheres, não somos muito diferentes. O que acontece às vezes, é que não conseguimos ser dois, como elas são duas. Daí Dona Flor e seus dois Maridos, entre outros casos de infidelidade menos divulgados. Cabe-nos aprender a amá-las, Marias Helenas e Cléos, completá-las e, à luz dessas revelações, entender-lhes todos os poréns, nãos e senões.

sábado, 22 de novembro de 2008

Paisagem

[Céu de sábado, pré-manhã.
Fim do trabalho de mais uma multidão.
Ouço o som do sono, cansaço, mas há deveres.
Vou ao terraço, ou o terraço me vem.
E, com os olhos, penso.]

São mares de campo, sombra e neblina, que pela alva se desvanece
Retendo o branco odor do que outrora eram pastagens, virgens de olhares cultos
Horizonte antigo e belo.

Do dia que cumpre despontar, a claridade imprime sóis
Na tez das naves, em sua metalescência pássara, como eu.
Diviso-as, assim, esparsas, imersas na brancura que se esvai
A dar lugar ao azul de um leve mar inverso, de águas feitas de céu.

É a face da liberdade, quando as vejo a vagar, nuvens, naves e nefelibatas
Vejo-as rumo a lugar nenhum, face à imutabilidade de horizontes tão alheios
E é por todos estes inexistentes destinos do meu vagar, que a liberdade busco
Liberdade que custa o solene preço da solidão.

Mas o branco me retoma o olhar, desaparecem sonhos, céu se anuvia
Indago-me se nasce apenas mais um branco dia, como na poesia
Ou se são, de Eugénia, as mágoas de cais-partida.

Não me importo, pois tudo são vagares de alma, de um ser que apenas e tão-somente
Adolescia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Linguagem do Decibel

Aqui na Alfândega recebemos passageiros da galáxia inteira. Ouve-se, então, idiomas de toda sorte. Um dos meus hobbies prediletos, além é claro da música, poesia e programação de computadores, com certeza é estudar línguas.

Da língua do P até o sânscrito, todas as línguas deste planeta têm suas peculiaridades, idiossincrasias. A palavra idiossincrasia, aliás, vem do mesmo radical de idioma, de onde provêm também, idiotismo e idiota (por que será?). Gosto dessa propriedade singular que as línguas têm de correlacionar coisas aparentemente sem nexo, no intuito de dar sentido à Natureza. É gratificante observar na prática, em cada um dos passantes de diversas nacionalidades, todas essas propriedades de cada língua, incluindo as variações da pronúncia, do sotaque.

Nunca estudei espanhol. Tendo confessado publicamente essa mazela, pecado mortal para um mercosulista, vejo-me ante um sem-número de viajantes, vindos de terras hispânicas e naturalmente versados no idioma de Cervantes. Eu, no meu ideal igualmente quixotesco de me fazer entender, arrisco umas palavras em Portunhol. Alguns, percebendo meu esforço hercúleo em penetrar-lhes o pensamento à custa de palavras mal articuladas, tentam me ajudar arriscando todo o seu Espanguês.

- Yo venho de Panamá, Sr.

Outros simplesmente ignoram qualquer tentativa de comunicação, fazendo-se de absolutos desentendidos. Imaginam que a falta de entendimento lingüístico possa representar-lhes alguma vantagem. Eu não tenho a menor idéia de como a alfândega americana, os "customs", por exemplo, os tratariam. Mas fato é que, quando isso acontece, é chegada a hora de decidir, unilateralmente, em que língua se dirigir ao passageiro.

- Do you understand English, Sir?
- No.

(Se ele falou "No", é que pelo menos a frase "Você entende inglês, Sr?" ele entendeu).

Então o que fazer? Simplesmente continuo a conversa, se em inglês ou português claro não importa, porém indicando com as mãos o que ele deve manusear, ou que direção deve seguir. Caso ele não pareça atender, elevo a voz. É a linguagem do decibel. Quem já me ouviu falar (ou cantar) sabe do que estou falando. Assim, o ser fiscalizado faz todo procedimento tão necessário à liturgia fiscalizatória, mesmo sem aparentemente ter entendido uma palavra sequer.

Nos procedimentos finais, conversamos com o passageiro. Esse eu descobri que entende português, inglês e espanhol, justamente as línguas que professou ignorar. Oriento-o sobre a saída, agora em português claro. O que parece desorientá-lo é o fato de que, quando se fez de desentendido, isso não o ajudou em nada. Apenas ajudou-o a aprender mais uma língua. Língua que ele, provavelmente, já conhecia, vinda talvez da infância, de pais e professores mais exaltos, ou talvez mais tardiamente, por parte de chefes igualmente animosos e insatisfeitos.

Neste contexto, a linguagem do decibel tem de ser usada com muita parcimônia - trata-se uma linguagem que ativa o emocional, o lado direito do cérebro. A responsabilidade cabe aos tons - São eles que ativam áreas específicas da psiqué. Como alguns já devem saber, ando estudando Chinês. Nessa língua, os tons de voz são parte integrante da linguagem - assim como os acentos estão para o português. Isso só tende a provar aquilo que já sabemos ser óbvio: Mais importante que o significado estático daquilo que você diz, está a maneira com que você o diz - isso inclui gestos, postura, entonação - seja em que língua for.

Ah, antes que me esqueça: Idiossincrasia e Idiota vêm do radical grego idiós, que significa Peculiar. Em grego, portanto, idiota é um homem peculiar, portanto, que por influência do latim idiota, também significa homem ignorante. A energia que dispendemos ao lidar com esses indivíduos gerou o termo Energúmeno - tratado com energia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Ermelinda, a Desocupada

Ermelinda era uma desocupada. Essa era sua ocupação principal. Dá pra entender? De uns tempos para cá, venho descobrindo que o termo "desocupada" passou a designar uma nova classe de profissionais, altamente gabaritados, verdadeiros "experts" no ofício da vagabundagem.
Acho inclusive que, em breve, vai se tornar uma profissão regulamentada, com direito a carteirinha, registro no conselho regional e exame de admissão. Isso mesmo. Exame para obter licença no ofício de se desocupar.

Uma desocupada de plantão como Ermelinda, devidamente registrada no CRD (Conselho Regional das Desocupadas), é uma profissional que, ao contrário do que o nome indica, desenvolve várias atividades. Ermelinda é desocupada mas não é tão burra assim. Tipicamente alguém que mora com os pais, entende, mais do que ninguém, que se trata de uma condição transitória. Assim, seu principal objetivo é buscar meios de subsistência, que a permitam perpetuar seu ócio. Como não estudou o suficiente para desenvolver uma atividade, tampouco deseja desenvolver nada de útil, procura desesperadamente por alguém que a sustente.

Nesse ponto, o advento da Internet veio facilitar o "trabalho" dessas tão competentes profissionais. Assim, em sites de namoro ou nos orcutes e hotmails da vida, procuram pelo seu príncipe encantado, o que finalmente vai lhes tirar do aluguel, e lhes abrirá as portas da carruagem da vida (carruagem de preferencia, importada e zero km).

Pois bem. Eis o príncipe. Se foi achado no orcute, MSN ou Baixa Aqui, não importa. O que fazer com ele? Ele não é bonito, mas isso também não importa muito. Ele parece escrever bem. Mas Ermelinda quer saber mais sobre o príncipe. Então joga o nome dele no único dicionário que conhece, o Google. E para sua surpresa, descobre coisas fantásticas sobre a vida dele.

Descobre que foi casado, que tem filhos, que trabalhou em várias empresas. "Sim, ele trabalha!" Pensa ela. "Se ele trabalha, é sinal que eu nunca mais terei de trabalhar na minha vida." Ermelinda está tão encantada com os dotes principescos, que até esquece que ela, de fato, nunca trabalhou na vida.

Ermelinda tenta conversar com o príncipe. Ele não lhe dá atenção. Pudera, está muito ocupado trabalhando. Ermelinda escarafuncha-lhe os escritos, faz anotações, conversa com outras pessoas. Ela parece decidida a se casar com o príncipe, por bem ou por mal.

Não obstante toda a indiferença que convém a um príncipe e uma desocupada, Ermelinda não desiste. Agora a sua estratégia é mostrar a todas as outras colegas de profissão que ele é, na verdade, um sapo. Se conseguir de alguma forma provar isso, o príncipe fica só para ela. Fácil né?

Mas o príncipe não é burro. E acima de tudo, ele tem desejos e vontade própria. Não se rende aos encantos baratos de Ermelinda e suas asseclas.

Mas ela segue assim, destruindo amizades de longa data, difamando, fazendo visitas estranhas pelo orcute, assediando pelo MSN, pelos blogs da vida, todos os amigos e principalmente as amigas e pretendentes do príncipe. Ermelinda nunca vai desistir, pois desistir significa abdicar da sua profissão de desocupada, abdicar de seu sonho de fazer um bom casamento, quando passará a procurar amantes ao invés de maridos.

Ermelinda tem o pensamento do século XIX, mas usa as armas tecnológicas do século XXI para conseguir seu intento. Mas até hoje, tudo o que ela conseguiu foi uma grande dor de cabeça.

Ermelinda é nossa homenageada aqui na Alfândega do Fim do Mundo.

Parabéns, Ermelinda !

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Agricultura versus Falta de Cultura

Fabíola é da Agricultura. A descrição mais sucinta que posso fazer dela é: Um doce de pessoa. Cabelos longos, passando um pouco dos ombros, tez clara, sorriso sincero. Nem parece uma fiscal. Na sua paciência quase infinita com os viajantes, lembra mais uma professora, que com desmedido zelo, ensina aos apedeutas o beabá da saúde dos nossos pratos.

Todas as vezes que chego na Alfândega, Fabíola me cumprimenta com um caloroso abraço. Gosto muito da energia que ele traz, uma energia de paz, que parece contrabalançar meus próprios sentimentos, minha impetuosidade e meu instinto de guardião, de exército que sou.

Aqui na Alfândega do Fim do Mundo não nos preocupam apenas os valores tributáveis. Barreiras sanitárias e afins definem que espécie de alimentos podem ou não ingressar no país. Iguarias de origem animal, nem pensar. São pessoas como a Fabíola, que têm o discernimento para decidir que sorte de alimentos pode entrar no país, e o que deve ser retido e desnaturado.

A falta de conhecimento sobre a lei, por parte dos passantes, é regra nesse tipo de abordagem. De qualquer forma, as providências devem ser tomadas independentemente do fato de o viajante ter lido as letras miúdas ou não. As apreensões de alimentos são inevitáveis. O que não consigo desculpar mesmo, é a mais absoluta falta de cultura dessas hordas.

Vindas de uma classe média decadente, desaculturada, carente de valores, escuto as frases mais variadas e absurdas. A mais comum é:

- "Vocês vão é comer isso ! Essa moça é uma morta de fome, uma indigente! Vocês todos são !"

Autocontrole é a primeira palavra que me vem à mente. Não importa se estou olhando algum laptop ou passando sabão em algum espertinho que excedeu ligeiramente a cota - Meus pés, em fração de segundo, se posicionam a um palmo e meio da pessoa que proferiu o referido impropério. E lá estou eu, a passageira infame, e Fabíola, com um olhar de indignação.

- "Minha senhora, é o seguinte. Aqui a gente recebe o suficiente pra comer muito melhor do que esses queijinhos baratos que a senhora está trazendo aí. Mas para a senhora não ter dúvida, o pessoal da Agricultura joga creolina em tudo.

Mais uma piadinha infame dessas, e eu prendo a senhora por desacato."

Faz-se um silêncio na bancada. Sei que é ruim ameaçar recorrer à força, mas em toda minha vida, não consegui que a ignorância compreendesse outra linguagem. (Aceito sugestões nesse sentido). Fabíola sorri pra mim. Pergunto a ela se preciso acionar a polícia. Ela diz que não. O trabalho segue normalmante, a passageira não diz mais nada, tão somente me dirige olhares que solenemente ignoro.

Pessoas de classe dita "média alta" usam desse tipo de artifício, na esperança de serem consideradas, de alguma forma, superiores. A Alfândega é um dos poucos lugares em que esse tipo de gente tem que baixar a cabeça e ouvir. Isso só acontece, porque o que nos torna superiores não é o quanto temos na conta bancária, e sim entre nossas orelhas. A cultura é um item desprezado, esquecido dessas turbas. E nesses momentos de tensão, de fiscalização, faz muita falta. Devemos nós, à luz do conhecimento, resolver essas situações de conflito com maestria, demonstrando superioridade em inteligência, perspicácia. Isso é o que importa. Sem cometer excessos, respondendo sempre à altura dos comentários, de uma maneira que o ser fiscalizado possa entender, e quem sabe um dia, ser trazido de volta à Luz.

No fim do vôo, sorrimos uns para os outros, trocamos apertos de mão, abraços, energia. É missão cumprida em favor do conhecimento, da liberdade, da cidadania.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Canção de retorno a um rei que espera

São tantas ruidosas hordas

Que em solo já desolado avassaladoramente despontam
E em trafegar cantado desencantam, o solo santo que ora assolam
Exércitos de sal e sangue, desenoveladores de leis e sonhos
Forças de mim que, por mal, libertam-se em desencontrada fúria.

E que pela abertura do acervo de pensamentos multifacetadamente vis
Assim penetram, embotando a suavidade de tudo que é sol e solo
Despoticamente assim se impõem, alheios ao Tudo e alma
E desarrazoados imprimem gris matizes de suor, poder, e medo.

Eu sou esse canto - Essas pessoas e todo esse trotar,
Ai do alheio, do incerto, do obscuro que interponha-se entre mim e Tudo.
Sou dessas almas da noite, fogo-fátuo de ilusões que a qualquer vista obnubila,
Mas sigo - E sei que essa frente, à minha frente se desintegra em cinzas

À absoluta logicidade do meu cavalgar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Das Trevas à Luz

Já na reta final do plantão, paramos para almoçar, eu e o fiscal.

É domingo, lojas de portas baixadas. Vamos ao Restaurante do Fim do Universo. Não é longe, está em um dos anexos do Aeroporto, na ponta norte, justamente onde acaba o mundo.

A vista é impressionante: Aeronaves de passageiros e carga, no espaço atmosférico, parecem dividir espaço com cruzadores e cargueiros, esses bem mais afastados, na região onde vácuo, sombra e estática formam um manto que envolve naturalmente o planeta e todos os seus habitantes. Estamos, como já afirmei, na borda terminal do Universo. Muita coisa acontece por aqui.

Mas logo deixamos o Stephen Hawking de lado e fomos falar de coisas corriqueiras. Ao sabor de um bom vinho nacional (homeopaticamente dosado, afinal ainda tínhamos algumas horas de plantão pela frente) começamos a refletir sobre certas atitudes do ser humano.

Quando recebemos alguém na Alfândega, freqüentemente verificamos que essa pessoa estava seguindo sentimentos e instintos negativos. Por que outro motivo alguém despacharia na bagagem um computador portátil, novinho em folha, no valor de alguns milhares de dólares, sendo que é público e notório o cuidado com que os carregadores tratam
as malas que saem do porão das aeronaves? Será que as pessoas correm tanto risco assim unicamente na esperança de escaparem à onividência fiscalizatória?

Isso não podemos afirmar. Mas o fato é que, quando finalmente nosso olho vê o que não queria ser visto, e somos obrigados a cumprir a lei, recebemos um passageiro rebelde, arredio, ainda preso aos velhos e negativos sentimentos.

Um passageiro que tentava de subterfúgios para transpor o intransponível. Descontente das leis, das pessoas. Importa-nos muito sublimar toda a raiva que ele sente, todo o ódio velado e incontido pelas instituições públicas em geral, e projetado em nossa Instituição. Nosso dever é converter essa raiva em energia colaborativa. Converter esse ódio em amor.

Paramos alguem que está em trevas. Das Trevas, trazemo-lo para a educação fiscal, para a ética, para a Luz enfim.

domingo, 16 de novembro de 2008

Gincana de Desculpas

Aqui na Alfândega do Fim do Mundo sempre fazemos um bolão, em que concorrem as desculpas mais esfarrapadas, recebidas pelos diversos viajantes que ingressam no País.

Vou me inscrever com esta aqui. Foi recebida de Sr. Passageiro, um indivíduo que acaba de passar quatro dias em Miami.

Tendo acabado de desembarcar, Sr. Passageiro é abordado.
(Fiscal) - Onde comprou este notebook, Sr.?
(Passageiro) - No Brasil.
- Como assim, no Brasil !?
[Era um notebook de ultimíssíssima geração, lançamento nos Estados Unidos.]

- É, Sr. Fiscal, comprei no Brasil. Isto é, não comprei, ganhei.
- Ganhou de quem, Sr. Passageiro?
- Da empresa onde trabalho.
- Ah, sim. E onde está a plaqueta de patrimônio?
- Não tem.
- Ah, então a Empresa lhe deu um notebook pra trabalhar, mas não o patrimoniou.
- Isso mesmo. Deram-me de presente.
- Ah, entendo. (O fiscal pára e tenta colocar o raciocínio em ordem, após quase 18 horas ininterruptas de plantão) . Empresa generosa, a sua, Sr.... er.... (a esta altura, já havia lhe esquecido o nome)

- Passageiro.

- Isso, Sr. Passageiro. Então lhe deram um notebook de presente. A viagem de quatro dias para Miami, foi um presente também?

- Sim, mas esse foi um presente da companhia aérea.
- Ah sim, até já imaginava, Sr.
- É que eu sou jornalista, e viajei para cobrir um evento deles.
- Sim, e o Sr. viajou por conta deles, e trouxe um notebook importado, mas comprado no Brasil, tendo sido levado daqui.
- Isso mesmo.
- O Sr. tem nota fiscal do equipamento?
- Não, foi a Empresa que me deu, lembra?
- Ah, sim. Mas uma vez que o Sr. saiu do país com o equipamento, não fez nota de saída temporária?
- Não.
- A empresa não lhe deu um comprovante da doação?
- Também não. Mas Sr. Fiscal, acredite. O equipamento é do meu uso, preciso muito dele.

(Se precisa dele tanto assim, por que será que esperou que o dessem de presente? Por que o não comprou? Pensa o fiscal, já duvidando do próprio QI.)

- Entendo Sr.... É Sr. Passageiro, né? Gostei muito da história que contou, viu, é bem interessante. Acredito em tudo que falou. De coração, Sr. Passageiro, acredito mesmo.

Mas aqui o equipamento será tributado.

Na Alfândega do Fim do Mundo temos uma regra de ouro: passou por aqui, tributa.
Bem simples não é?

(O Fiscal mostra ao Sr. Passageiro uma DARF e um sorriso, nesta ordem.)

- O Sr. vai ao banco pagar o imposto agora?

sábado, 15 de novembro de 2008

A Chegada

Aeroporto Internacional do Fim do Mundo. É madrugada. Já se pode ouvir o murmúrio das pessoas se enfileirando nos balcões da Imigração. Alguns instantes após, carrinhos de bagagem já se posicionam em frente à esteira, fazendo um ruído que lembra a inauguração de um supermercado.

Vestidos em uniformes que combinam preto com tons escarlate, sorrisos devidamente montados no rosto, funcionários do Free Shop aguardam por uns passageiros abastados, outros nem tanto, mas todos eles fatigados pelo vôo. Porém, mesmo todas as extenuantes horas de viagem enfrentadas não conseguiram lhes tirar a ânsia por boas compras, numa das raras ocasiões em que lhes são perdoados os impostos, dentro de uma modesta cota.

A ânsia dos funcionários, porém, é outra: Que as compras se dêem o mais brevemente possível, o que nem sempre acontece.

Na Alfândega do Fim do Mundo, aguardamos por todos eles. Cada um tem uma história de vida, e muitos deles estariam dispostos a contá-la toda ali. Não fora a falta de tempo, inimiga de tudo o que é bom, teria o maior prazer em anotá-las todas, reunindo material para talvez redigir um livro.

Algumas dessas histórias são de operários, que viviam ilegalmente no exterior, e que vieram fugidos da crise internacional. Famílias inteiras abandonaram o sonho americano, europeu. De volta à casa, alimentam outro sonho. O de novamente serem felizes, junto aos parentes e amigos que deixaram aqui.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O que é a Alfândega do Fim do Mundo

Olá Pessoal,

Sou de uma Alfândega. Isto mesmo, uma Alfândega. Reviro bagagens, discuto com os passageiros, reivindico ao País o que lhe é devido, a despeito das expectativas, frustrações e arrogâncias de cada um.

Meu trabalho é difícil, mas é gratificante.

Lido com Pessoas. E não há nada mais difícil, e ao mesmo tempo prazeroso, do que lidar com o intrincado e complexo ser humano.

A minha alfândega está no Fim do Mundo. É um modo de dizer que ela não está em lugar nenhum, e ao mesmo tempo, está em toda a parte. Em todos os países, em todas as culturas, sempre existirá uma Alfândega. E eu estarei lá.

Na minha Alfândega, o interesse de todos está acima do interesse de cada um. É uma alfândega ideal. Não que as pessoas sejam ideais, tampouco as leis, mas é nela que realizo meu ideal quixotesco de servir a Humanidade.

Aqui apreendemos muamba e poesia.