sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Linguagem do Decibel

Aqui na Alfândega recebemos passageiros da galáxia inteira. Ouve-se, então, idiomas de toda sorte. Um dos meus hobbies prediletos, além é claro da música, poesia e programação de computadores, com certeza é estudar línguas.

Da língua do P até o sânscrito, todas as línguas deste planeta têm suas peculiaridades, idiossincrasias. A palavra idiossincrasia, aliás, vem do mesmo radical de idioma, de onde provêm também, idiotismo e idiota (por que será?). Gosto dessa propriedade singular que as línguas têm de correlacionar coisas aparentemente sem nexo, no intuito de dar sentido à Natureza. É gratificante observar na prática, em cada um dos passantes de diversas nacionalidades, todas essas propriedades de cada língua, incluindo as variações da pronúncia, do sotaque.

Nunca estudei espanhol. Tendo confessado publicamente essa mazela, pecado mortal para um mercosulista, vejo-me ante um sem-número de viajantes, vindos de terras hispânicas e naturalmente versados no idioma de Cervantes. Eu, no meu ideal igualmente quixotesco de me fazer entender, arrisco umas palavras em Portunhol. Alguns, percebendo meu esforço hercúleo em penetrar-lhes o pensamento à custa de palavras mal articuladas, tentam me ajudar arriscando todo o seu Espanguês.

- Yo venho de Panamá, Sr.

Outros simplesmente ignoram qualquer tentativa de comunicação, fazendo-se de absolutos desentendidos. Imaginam que a falta de entendimento lingüístico possa representar-lhes alguma vantagem. Eu não tenho a menor idéia de como a alfândega americana, os "customs", por exemplo, os tratariam. Mas fato é que, quando isso acontece, é chegada a hora de decidir, unilateralmente, em que língua se dirigir ao passageiro.

- Do you understand English, Sir?
- No.

(Se ele falou "No", é que pelo menos a frase "Você entende inglês, Sr?" ele entendeu).

Então o que fazer? Simplesmente continuo a conversa, se em inglês ou português claro não importa, porém indicando com as mãos o que ele deve manusear, ou que direção deve seguir. Caso ele não pareça atender, elevo a voz. É a linguagem do decibel. Quem já me ouviu falar (ou cantar) sabe do que estou falando. Assim, o ser fiscalizado faz todo procedimento tão necessário à liturgia fiscalizatória, mesmo sem aparentemente ter entendido uma palavra sequer.

Nos procedimentos finais, conversamos com o passageiro. Esse eu descobri que entende português, inglês e espanhol, justamente as línguas que professou ignorar. Oriento-o sobre a saída, agora em português claro. O que parece desorientá-lo é o fato de que, quando se fez de desentendido, isso não o ajudou em nada. Apenas ajudou-o a aprender mais uma língua. Língua que ele, provavelmente, já conhecia, vinda talvez da infância, de pais e professores mais exaltos, ou talvez mais tardiamente, por parte de chefes igualmente animosos e insatisfeitos.

Neste contexto, a linguagem do decibel tem de ser usada com muita parcimônia - trata-se uma linguagem que ativa o emocional, o lado direito do cérebro. A responsabilidade cabe aos tons - São eles que ativam áreas específicas da psiqué. Como alguns já devem saber, ando estudando Chinês. Nessa língua, os tons de voz são parte integrante da linguagem - assim como os acentos estão para o português. Isso só tende a provar aquilo que já sabemos ser óbvio: Mais importante que o significado estático daquilo que você diz, está a maneira com que você o diz - isso inclui gestos, postura, entonação - seja em que língua for.

Ah, antes que me esqueça: Idiossincrasia e Idiota vêm do radical grego idiós, que significa Peculiar. Em grego, portanto, idiota é um homem peculiar, portanto, que por influência do latim idiota, também significa homem ignorante. A energia que dispendemos ao lidar com esses indivíduos gerou o termo Energúmeno - tratado com energia.

10 comentários :

fred disse...

"Mais importante que o significado estático daquilo que você diz, está a maneira com que você o diz - isso inclui gestos, postura, entonação - seja em que língua for."

É este o principal motivo de haver muito desentendimento entre pessoas que “conversam” através da Internet usando apenas palavras escritas, sem os recursos da entonação, dos gestos, do olhar.

Abração, Joeldo.

Fabi disse...
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Mulher disse...

Muito chique seu blog.
Saudades imensas... grande abraço.f

Angel_amim disse...

Na episteme central somente gestalts in natura.
Assomavam no baldio corruptelas ferreteadas em estrídulos, escaramuças de truz tamponando os saltimbancos (como nas casas de colonos), todos com estripulias de aço sibilino — quem já esteve junto à miçanga e percutiu o aroma das loas assadas, inesquece para sempre.
"trecho de lembranças da fazenda"
concordo com o Fred.
Vou além,vc é maravilhoso!
Um beijajajajajão PAPITO
Angelica

Felino da Madrugada disse...

Olá Papito,
esse texto me fez lembrar,meu professor na Faculdade Física...
você o descreveukkkk
Parabéns,adorei o nosso papo tb
dica de presente:carrinhokkkkkkkkkkkk
Abração
Michel Amorim

Mari Amorim disse...
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Joeldo disse...

Gente obrigado por mais esse carinho.
pouco a pouco vou tentando intercalar poemas entre as crônicas.
Acho que será poema o próximo, me aguardem.
Beijos

BLOG DA TANIA POESIAS disse...

Realmente é um texto mto ligth, divertido e bastante aguçado, além das aulas de linguas sobre a palavra.
諺語: 桃李不言, 下自成蹊
山重水复疑無路柳暗花明又一村 (宋, 陸游, 遊山西村)
O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida.
Cora Coralina
Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.
Provérbio chinês
Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa.
Platão
Como vc também estou iniciando o curso de mandarim, enquanto não começam minhas aulas estou estudando com meu amigo Fang que me mandou por emai-l estes proverbios para aguçar nossa curiosidade, só nao mandou a tradução que é para ser decifrado pelos pupílos. boa sorte. Mas continue com teus textos que são mto inebriantes e alguns divertidos de ler.Gostei também porque entro na minha área a medicina com seus decibeis e da neurologia que sabes que é minha paixão. bjs no coração

Mari Amorim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lygia disse...

Eu disse que não encontrava palavras prá comentar "seus escritos". Com esse, vc me ajudou a descobrir o porque disso. Não existe palavra em quaquer idioma na terra,que eu possa usar ... Estou consultando o dicionário dos anjos, quem sabe eu encontre alguma que possa descrever você.

Beijos