quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Pássaros Urbanos

[foto: Andorinha - Série Pássaros Urbanos, por Bermudes]

[para música de Liduíno Pitombeira]


Sob o sol das cidades, observo
O debater de inverossímeis asas
A namorar o cimo dos sobrados
E a devotar seu canto pelas casas.

São pássaros do tempo, que floreiam
A lida inconsistente das calçadas
Pairando em tons de dúvidas e sombras
Sobre as certezas surdas das estátuas.

Os pássaros sem pouso são filósofos
Eivados de calor e poluição
Que não vêem mais folhas sobre os postes
Nem crêem que há mais frutos pelo chão.

São meio heróis, os pássaros do asfalto
Divagam em patética insistência.
Fazendo coro à frigidez da chuva,
Reverberando aladas consciências.

Os pássaros sem rumo dialogam
Com o insensato canto do seu mundo
Que ecoa, desmedido, em seus pilares
Unissonamente, a cada segundo.

São pássaros urbanos, que navegam
Na forte ventania do progresso
Dançando a valsa dos próprios destinos
Voando em brancas nuvens se repintam

No céu azul que ora amanhece.



© Joeldo Holanda

domingo, 25 de janeiro de 2009

meme

Recebi do Blog de Fred Matos a seguinte tarefa:

1-Agarrar o livro mais próximo;
2-Abrir na página 161;
3-Procurar 5ª frase completa;
4-Colocar a frase no blog;
5-Repassar pra 5 pessoas.

O livro mais próximo é “O Universo numa Casca de Noz” de Stephen Hawking, versão em português (estava na ponta da prateleira da estante, ao lado da mesa onde repouso o notebook).
Na página 161 a 5a frase [e subsequentes] diz:

“A vida parece ter se originado nos oceanos primordiais que cobriam a Terra há 4 bilhões de anos. Como isso aconteceu, não sabemos. Pode ser que colisões aleatórias entre átomos formaram macromoléculas capazes de se reproduzir e de se reunir em estruturas ainda mais complexas. O que sabemos é que, há 3,5 bilhões de anos, a altamente elaborada molécula DNA surgiu.”

Minhas 5 vítimas são:

Adair
Juninho Holanda
Luiza Helena
Mari Amorim
Tania Zotto

sábado, 24 de janeiro de 2009

Armados Até os Dentes

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[foto: um sorriso, caso você não saiba do que se trata, ou não se lembre.]



Nosso plantão é de vinte e quatro por setenta e duas horas. Isto significa que após vinte e quatro incessantes horas de trabalho, a folga se estende por três dias. Para alguns fiscais, como Marcos, esse é o único lado bom de se trabalhar no plantão. O estresse que sofremos dos passageiros tiraria, segundo ele, a graça de trabalhar com a fiscalização aduaneira. Também tenho sofrido muito com esse problema e, até então, não havia conseguido uma fórmula segura para mitigá-lo.


Início de plantão. Deparo-me com os fiscais Magalhães e Maria Elena. O estado de animação de Magalhães, frente ao ar cansado de Maria Elena, não me deixavam dúvidas sobre quem estava assumindo o plantão, e quem o estava deixando, já tendo cumprido as vinte e quatro horas de batente. Perguntei a uma circunspecta Maria Elena como tinha transcorrido o trabalho. Ela disse que tudo bem, que não havia sofrido muita amolação por parte dos passageiros, que havia dado sorte, portanto.


O sábio e sorridente Magalhães, porém, intervém.


- Isso não tem nada a ver com sorte. O clima, se de bom humor ou de estresse, no atendimento, vai de nós, fiscais, e não dos passageiros. Eles apenas refletem o que emitimos para eles.


Deu um estalo. Puxa, é isso. Mas como seria? Então passei a questionar Magalhães, fiscal com quem ia trabalhar as próximas vinte e quatro horas. Ele, ainda sábia e sorridentemente, prosseguia.


- Pense bem. O passageiro está ali. Enfrentou dez, doze, quinze horas de vôo sem conseguir esticar as pernas. Está sonolento e todavia o dia não se desfez em noite, para dar-lhe o merecido descanso, por culpa do fuso horário. Chegando aqui, enfrentou a má educação de outros profissionais que o atenderam. Extraviaram-lhe a bagagem, os familiares que vinham buscá-lo não vieram. E como se não bastasse, lá está a Alfândega, que veem não como um lugar em que se regularizam perante a lei os seus pertences. Veem-nos como uma ameaça ao seu patrimônio.

Como receber um passageiro assim? - Ele me pergunta, como um professor que espera, de seu aplicado aluno, a resposta correta e a lição aprendida.


- Com um sorriso estampado no rosto e um "Boa noite!" - arrisquei.


- Isso mesmo, Joeldo. Precisamos cumprir a lei, claro. Já fazemos coisas ruins demais, pelo menos aos olhos do passageiro. Assim, não temos motivo nenhum para fazê-lo de cara fechada. Veja que, como fiscais, fazemos tudo ao contrário do que nossa mãe nos ensinou.

- Como assim? - continuo a cavucar Magalhães. - Coisas ruins, que nossa mãe não nos ensinou?


- Isso mesmo. Nossa mãe nos disse pra não falar com estranhos. Porém, isso é o que fazemos o tempo todo. Abordamos gente que nunca vimos, gente que sequer fala nossa língua. Mamãe nos diz para não mexer em coisas alheias. E somos obrigados, por lei, a virar e revirar bagagens, jóias, valores, o tempo todo. Ou fazemos isso ou não somos fiscais. Assim, prefiro fazer tudo de bom humor, transmitindo energias positivas para o passageiro. Desta forma, conseguiremos cumprir a lei, sem estresse, e sem contratempos maiores do que a lei exige que causemos.

Sábio Magalhães. Decidi, então, me armar. Até os dentes, literalmente. Sou sorridente, não sou sisudo. Um sorriso não nos compromete, não nos envolve emocionalmente. Mas ele pode trazer o passageiro para nossa causa. É um divisor de águas. Então decidi que nenhum passageiro iria passar por mim, sem ter recebido um sorriso, um cumprimento, uma indagação de como foi a viagem. E ver no que dá.

No começo foi estranho. Acho que mais para os passageiros, do que para mim. Alguns pensamentos que pude ler, diziam: "Será que está louco?" "Ih, acho que bebeu antes do plantão." "Sei não, esse fiscal está querendo alguma coisa."

Aos poucos, acostumei-me com essas reações, e contra-atacar. Claro, pois como o sorriso é uma arma, armas exigem posições específicas de ação, pois há o revide, o contra-ataque. Usado corretamente, o sorriso é mais ou menos como um raio paralisante - traz automaticamente para o seu lado quem recebê-lo.

Aos poucos, os passageiros foram respondendo. Sorriam também. Alguns poucos não sorriam, não esboçavam reação. Às vezes um muxoxo, um olhar cínico. Aquela energia ruim ameaçava me embotar. Virava o rosto, pensava em algo bom. Voltava-me e despedia-me do passageiro com o mesmo sorriso, que seguia em frente como se fosse mais um navio inimigo, que desistira de fazer guerra ali, dada a intensidade do fogo com que foi recebido.

Com isso, descobri mais um poder - o sorriso funciona também como um detector. Consegue identificar rapidamente gente mal-intencionada. Pessoas "do mal" não sorriem.

E tudo transcorria naturalmente. Apreensões, impostos pagos. Tudo na mais absoluta normalidade. E, desta vez, sem estresse.



Aproximava-se o final do plantão. Chegava o temível vôo da ZAP. É a prova de fogo, pensei. Qual nada. Consegui desarmar duzentos e dezesseis passageiros. Nove apreensões, dois pagamentos de impostos. E todos que saíam, nos agradeciam por termos feito nosso trabalho.

Ao final de mais um sol e uma lua de trabalho, Magalhães me cumprimenta. Disse que nunca havia trabalhado com alguém tão alegre, sorridente, festivo. Apenas me espelhei, pois, de fato, a alegria e animação que vêm dele, não me permitiriam mais distinguir, naquele momento, se ele estava saindo ou chegando no plantão. Magalhães nunca muda. Sempre armado até os dentes.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Instante de Realidade




[Eu, que nasci da palavra surda,
E sem espelhos,
Estou de pé sobre a montanha entre dois tempos
E caminho.]


Misto de expectativas e memórias
Assim se define o nada que sou
A consciência é fruto do presente
Estacionado à linha divisória.


Estou no nada, e o nada em mim é tudo
Não posso acreditar senão no agora
Sou feito tão-somente de um momento
Quer aproveite-o, quer o deite fora.


Onde estou é zênite, cimo, e vórtice
E pouco importa a direção a tomar
Um lado é sempre o escuro do que houve
O outro é a escuridão do que haverá.




terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A Louca da ZAP

[Foto: Alguém que não tem nada a ver com a história,
apenas está em uma camisa-de-força.
Pedimos desculpas a quem está posando na foto.
Você não tem nada a ver com a
fdp descrita na história abaixo.]

Demorei para criar coragem para relatar esta história. Foi, de fato, traumatizante. Não que tenha acontecido algo grave - na rotina de uma Alfândega passamos por dissabores e desaforos. Mas aquilo foi uma experiência de limite - há tempos, não tinha ainda experimentado até onde a arrogância humana poderia chegar. Ocorreu num dos meus primeiros plantões, ainda bem inexperiente portanto. É uma história um pouco longa e sofrida. Mas encerra uma boa lição para todos nós.


O vôo da ZAP [Zenon Aerovias e Por-terra] é um dos mais extenuantes com os quais trabalhamos. Ali emerge todo o mau humor de passageiros extenuados por catorze horas de vôo, vindos de Antares, capital de Zenon. Cansados e ansiosos por chegar em suas casas e pousadas, a última coisa que esperam encontrar pelo caminho é uma Alfândega, a revirar-lhes as saborosas iguarias que trazem com tanto zelo. Saborosas e perigosas, como os queijinhos de Antares, o tradicional bacalhau de Ishtar, ou azeitonas de Lemitra, veículos certeiros de epidemias, propositadamente transmitidas, como pólvora que alimenta a eterna guerra comercial entre países.


Mas chegamos ao Brasil e estamos todos lá, executando nossas atividades, quando irrompe ela, no desembarque, nada menos que A Louca. Não vou dar-lhe um nome. Será a Louca da nossa história.


- Como assim, perderam minha bagagem?

- Nós sentimos muito, senhora. - responde uma amedrontada Roberta, funcionária da ZAP e querida por todos nós - A senhora terá de preencher um formulário de reclamação.


- Não vou preencher porcaria nenhuma ! Você preenche isso pra mim! Está vendo por que você está desse lado do balcão minha filha? Você é pobre! Não tem dinheiro pra comprar uma passagem para Antares então fique aí! Trabalhe!


Roberta engole em seco. Trêmula, começa a rabiscar o formulário, inquirindo os dados pessoais da Louca.

- Qual o endereço de entrega, senhora?
- Rua das Amendoeiras, bairro Boa Vista.

- Boa Vista aqui em Lagoa Azul? - interrompe nossa ingênua Roberta.

- Que Lagoa Azul o quê! Boa Vista lá em Antares! Você acha que eu moro aqui nessa favela onde vocês moram, que é o Brasil? Eu moro em Zenon minha filha! Zenonita naturalizada ! Só venho aqui uma vez por ano ! - esbraveja, batendo no peito.


[Mas vem aqui nessa "favela" fazer o quê, afinal?] - Pergunta uma nuvenzinha, estampada com o pensamento de uma já indignada Roberta.


- Poderia assinar aqui, senhora? - Roberta oferece, com uma serenidade que tirou não sei de onde, o formulário e a caneta. A Louca assina e continua a esbravejar, por minutos a fio.


- Senhora, por favor, o formulário. Preciso atender os outros passageiros.


A Louca então devolve o formulário, sob o olhar fulminante de uma fila inteira de passageiros que, estando na mesma situação dela, compreendem que a funcionária, ainda que represente a ZAP, não precisava estar passando por um vexame daqueles, por conta de um erro da Companhia.


- Senhora, eu também preciso da caneta. - Nesse momento, a Louca atira violentamente a caneta, que atinge o rosto de Roberta. Ela começa a chorar. Outro funcionário irá consolá-la. A varrida segue sua trilha de destruição. Agora começa a discutir com o funcionário do Aeroporto. Como era de se esperar, ninguém mais tinha razão, apenas a Louca. Desse modo, a discussão terminou mais ou menos assim:


- Meu filho, vocês são um bando de incompetentes ! Você vai ver! Quero seu nome, sua matrícula! Eu tenho muita influência! Você vai ser posto na rua ! Seu nome deixa ver... Roberto... Pode dar adeus ao seu emprego !


E finalmente a Louca chega à Alfândega. Para atendê-la, nada menos que nosso querido Homero. Ele explica tudo a ela conscienciosamente.


- Você precisa passar sua bagagem na esteira de raios X, para verificarmos a presença de bens de valor. Assim, aferiremos se você utilizou sua cota. Faremos o mesmo à sua bagagem extraviada, quando ela chegar.


- Não entendi.


- Você precisa passar sua bagagem .... Homero repete pausadamente. [A Louca nasceu no Brasil e fala português, que é também é a língua falada em Zenon.] Mas a varrida insiste em não entender.


- Eu não vou pôr bagagem em esteira nenhuma !


Nesse momento, eu estava fazendo alguma coisa e o tom da discussão me fez aproximar-me de Homero e Louca.


- Como é que é, senhora? - Interpelei, em tom enfático. - A senhora tem que pôr a bagagem na esteira sim.


- Eu não estou conversando com você! Você não tem nada com isso ! - A Louca vem para cima de mim. - Esse senhor é um grosso! - disse, referindo-se a um já alterado Homero. - E você, quem é você, pra me dizer o que eu devo fazer? Você sabe com quem está falando?

Pessoal, essa frase me fez subir toda a adrenalina que minhas adrenais puderam fabricar em meio segundo.


- Eu não quero saber quem a senhora é! Ou você põe isso na esteira ou eu vou chamar a polícia !
Agora era eu mesmo, no auge da minha irritação, tentando colocar aquela metida nos eixos.

- Pode chamar a polícia! Eu sou diretora da Escola de Infantaria do Exército ! - esnoba a mulher.

- Minha senhora, aqui na Alfândega do Fim do Mundo nós não aceitamos carteirada. Aqui desembargador, juiz e até diplomata passa a bagagem. Trate de passar a sua porque eu já estou chamando a polícia.

A mulher atira violentamente as bagagens na esteira. Dou a volta e tento conversar com alguém, para que seja feito contato com os homens da lei. Não que eu não seja um homem de lei, mas há momentos em que uma automática na cintura faz a diferença.


A polícia chega.


- Estão vendo, seus policiais? Eles não me ajudaram a pôr a bagagem na esteira, eu, uma senhora desamparada ! - assim começa a reclamar de nós, ante à imponente presença dos dois policiais federais, de armas na cintura, e algemas na mão.


- Mas a senhora não pediu ajuda. Nem mesmo queria pô-las lá. - Expliquei didaticamente. - E afinal de contas, se trouxe essa bagagem de Antares até aqui, poderia pô-la na esteira sem problemas.


- Você vai me pagar por ter dito isso, seu grosso, cretino!


Nesse momento, dei-me conta do estado de loucura da mulher. Eu não devia ter me alterado, devia sim tê-la tratado como aquilo que, de fato, ela é. Apenas uma louca, doente, demente. Mas o sangue já havia subido. Então respondi.


- A senhora é que não tem um pingo de educação.


Foi meu erro fatal. A mulher começou a esbravejar. Os policiais acompanharam tudo. Ela esbravejou, esbravejou. Discutiu com porteiro, operador de raio-X. A bagagem dela estava OK. Mas ela pegou meu nome, minha matrícula, a de Homero.


- Vocês vão ver. Digam adeus ao emprego de vocês. Vão me pagar pelo que fizeram!


De fato, fizemos. Eu, Homero, Roberto, Roberta, fizemos um termo circunstanciado, lavrado e assinado por todos, e entregue à polícia. No momento, houvemos por bem não mandar prendê-la. Foi uma decisão de Homero com a qual não concordei de imediato, mas agora sei que foi a melhor saída.

Ela poderá responder a um processo administrativo e pagar uma multa de dez mil reais, por embaraço à fiscalização, além do crime de desacato à autoridade.

Finalmente, a mulher se dirigiu ao balcão da agência nacional de aviação. Foi atendida por Flávio, um senhor solícito e sorridente:

- Pois não, minha senhora. Em que posso ajudá-la?

- Eu queria reclamar... Eu queria... Eu...

Buáááááááááááááááá...

Assim se vai a nossa Louca da ZAP, embarcando no ônibus em direção à capital.

Homero, eu, Roberto, Roberta e todos os outros continuamos com nossos empregos, nosso bom humor, nosso senso de humanidade e igualdade, vivendo nessa favela maravilhosa que é o País que amamos.

Parabéns, Louca ! A exemplo das Ermelindas, agora nossos detectores também foram ajustados para você !


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Docinho Proibido [mas nem tanto]

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Dizem que doce de leite engorda. Eu, como vim de terras onde a secura e magreza não são um sinal maior de saúde, que da falta dela, cuido para ter uma beleza redonda. Por sinal, muito me agrada a parceira bem tratada a doce de leite, com formas, por assim dizer, renascentisticamente delineadas.


Isto posto, voltemos à Alfândega. Lá está meu amigo Jonas. Afeito ao regime, procura sempre evitar os doces e outras excentricidades culinárias às quais me entrego sem pudor. Cerveja fora de hora, nem pensar.


Mas na Alfândega, temos que ser imparciais. Só passa o que a legislação permite. Porém, muitas vezes, a legislação é tão clara quanto um livro do Karl Marx. E mais, pode ser tão acessível quanto o telefone do Bento XVI. Então usamos nossa sensibilidade e senso de justiça [que nem sempre funcionam].


Fiscais não sabem tudo. Essa é talvez a diferença mais evidente entre um fiscal e Deus. Ironias à parte, lá estava Jonas, numa madrugada de sábado, enfrentando heroicamente um vôo de duzentos e tantos passageiros, sem raio X, sem ninguém mais na equipe, sem ministério da Agricultura. Só Jonas e Deus. E Jonas, como dito anteriormente, em clara desvantagem em relação a Ele.


Foi quando apareceu uma daquelas senhoras, sorridentes apesar do cansaço de 10 horas de viagem. Loira, estatura média, aparentando uns 45 anos. Acompanhada da filha adolescente, seria ela uma senhora de meia-idade, não fosse o termo estar em desuso, uma vez que não há que se falar da metade, quando se desconhece o todo.


- A senhora está trazendo algum equipamento eletrônico? - indaga Jonas, tentando compensar a falta do olho eletrônico que o operador de raios X nos proporciona.

- Não senhor.

- A senhora traz algum alimento? Doce de leite?


A mulher suspirou. Ela trazia, sim, doces. Alfajor. Uma delícia. Logo lhe veio o pensamento: "isso engorda". Quem pensou, se ele ou ela, não importa. Era algo proibido. O Ministério da Agricultura não estava lá, mas doce não pode. É de origem animal, entenda. Não pode e pronto. Jonas tentava explicar isso à mulher, que ouvia com resignação. Para ela, o "proibido" soava mais pelo pavor que tinha de se render às gordurinhas localizadas, que pelas portarias do Ministério da Saúde ou coisa que o valha.


Pois bem. Tudo explicado e entendido, vamos à creolina. Sim, os alimentos apreendidos são desnaturados. Assim, garantimos aos passageiros que nosso vale-refeição é utilizado corretamente. Jonas já estava abrindo os pacotinhos. Creolina em punho. Nossos deliciosos Alfajores, fadados ao cadafalso da apreensão. Tudo sob o olhar triste, mas aliviado da mulher. Uma gordurinha a menos, pensava ela. Pelo menos isso.


Nesse momento, quem chega: Homero. Lembram-se dele? Ele mesmo, o Fiscal Zen. Pois bem, no momento em que Jonas empunhava o fatal frasco de líquido desnaturante, veio o veredicto:


- Alfajor pode sim.


[Mas não é doce? Pensava Jonas, visivelmente decepcionado com o alarme falso que dera.] Alfajor é doce, mas Alfajor pode. Ninguém sabia qual portaria proibia e qual permitia, mas Alfajor podia. Era a experiência de Homero, vinda em boa hora, a bem da justiça. Alfajor pode e pronto.


E o que fazer com todos aqueles pacotinhos abertos? Jonas olhava para a mulher, visivelmente preocupado. Ela, por sua vez, ria às escâncaras. A filha dela fazia uma cara de paisagem.

- Tudo bem, então posso levar meus docinhos, né?

Jonas pedia mil desculpas a uma mulher agora feliz, por ter reconquistado suas gordurinhas. Vou reler essas portarias, pensava ele. A mulher não pensava em mais nada - Apenas ir para casa e saborear cada pacote daquele docinho gostoso.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Feliz Ano Novo, enfim.

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Antes que eu me esqueça: Feliz Ano Novo. Já vamos para quase uma dezena de dias do Ano Novo, e ainda não tinha dado tempo para refletir.

Sobre o ano que passou, só tenho bênçãos a agradecer. Minha vida melhorou muito. Se há quem me deseje mal, que continue desejando - o tiro, por enquanto, tem saído pela culatra. Desejo-lhes, ao invés, todo o Bem do mundo, e que se encontrem. Basta procurar no lugar certo. Entenderam? Então vamos lá:


Acessos do Blog

O blog já supera os 10 mil acessos ! Em 2008 tivemos 9.310 acessos em pouco mais de 1 mês e meio de operação. O texto campeão de acessos foi "Detectores em Ação", uma sátira às portas giratórias e detectores usados em todo o mundo, com 411 acessos no dia seguinte à publicação. Seguem-se "A Dama de Ferro", prata com 341 acessos, e o bronze vai para a nossa querida "Ermelinda, a Desocupada" com 324 acessos. Em compensação, o "Ermelinda" foi o texto mais longamente apreciado, consumindo em média 24 minutos dos vossos preciosos olhos, sendo seguido por "Entendendo as Mulheres - ou não", com 22 minutos, e "Detectores em Ação" com aproximadamente 14 minutos de canseira. São, de fato, os textos mais longos e cheios de pegadinhas... Parabéns aos nossos aplicados leitores, pois como vi, leram tudinho !

Comentários

Obrigado a todos pelo alto nível dos comentários postados. Ainda estamos em fase de moderação até que se acalmem alguns espíritos mais exaltados, Ermelindas e afins. Quanto a responder aos comentários, faço meu mea culpa - sou extremamente lerdo e acabo deixando alguns [às vezes quase todos] comentários sem resposta. Este ano, prometo ser mais diligente e não deixar ninguém falando sozinho. Mas é que a maioria dos comentários, de tão completos, nem carecem de réplica. De qualquer forma, vou sempre procurar sinalizar que estou atento ao que todos vocês escrevem.

No mais, feitas as pazes e curadas as ressacas, é entrar em 2009 com força total !