sábado, 27 de dezembro de 2008

Melodia




Em que pese a madrugada de todas as casas,
E as salas de escrever em que sou luz para tudo isto,
Só posso pensar nas notas imóveis do piano
Da música inerte do que eu nunca fui.

Olho para a janela e espero, mas sem esperança,
Que o Infinito finalmente caia sobre mim,
Como o suor da chuva temporã do mês de maio,
Ou como se algo fosse concreto.

Nada, porém, supera o absurdo inconsciente e inócuo
De eu ainda estar escrevendo.

Oxalá não aparecessem debalde o Esteves e o Rodolfo,
Tampouco o Alves, pai bastardo da substância real de tudo,
Só esta sala e a sensação do todo que é o piano
E das notas que, agudas, escavam sulcos no silêncio morto
Dos patamares da minha existência.


*




quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

poema para um reinício de tarde

Hoje desisto da tua ausência.

E assim te encontro,
Eu,
Numa habitualidade inexplicavelmente impassível,
Aflito como quem capitula à batalha final
Morto de tanto não fazer poesia,
E hoje, desistido de tudo, te encontrei.

(E hoje, sossegue, não hei loas à minha própria inércia,
Nem à aflição, tampouco à definitiva esterilidade que me toma)

O meu louvor, se é que me entendes
É que a tua existência faz talvez o meu retorno
À minha própria.

E desde já perdoa-me, e não consideres qualquer das minhas palavras
Mais que um desabafo, eu que na tarde de mim
Assim, já fraco de batalhas, morto de tanto não dar fruto
De mim mesmo, vazio, vazio, vácuo da irresponsável busca do não,
Descasado do que há de bom em tudo, descasado da virtude,
Frio, seco, desbotado, esturricado, infértil, torpe
É assim que me encontras
E assim não tomes, por favor, sequer destas palavras.

Mas não há que lamentar com isso: O meu conceito de existires
É talvez o retorno de tudo,
Se tu és, então talvez haja volta
Talvez não haja mais desapontar-me tanto a vida
Talvez haja ainda acreditar
Só porque sinto dentro de mim que tu existes.

E não é porque te espelha a doçura
De uma alma luzente, alma grávida de virtudes que já esqueci
Ou olhos que traduzem respeito e pureza tantos que desconcertam,
Tampouco é pela boca que balbucia afetos como plumas,
Não é por nada disso que tu existes tanto em mim.

É, sim, pelo que viver tudo isso me traz.

Se me volto, e te vejo, e o teu vestido tremula ao mesmo vento
Que me impele a essa direção tão tua
Isso te faz em mim não a visão
Mas a direção que de ti faz vereda
E me revela o cansaço de tanto não tê-la caminhado.

Vereda, minha vereda, o teu beijo de virtude me espera
Ao teu final, e assim percorro-te
Sofrendo docemente a esperança do teu beijo.

Caminho que me traz à tona, resgata-me
Desta noite tão profunda, de caminhos tão diversos
Conduz-me a esse amor que tanto esqueci.

Vereda iluminada, traz-me de volta
Desta insistência, tão minha, de inexistir.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal

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[Foto: árvore de Natal na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte-MG]




Pessoal,

O Natal não muda. Em que pesem as insistências em contrário, o Natal é eterno e verdadeiro.

Assim, desejo um Feliz Natal a todos, mas todos mesmo, até para quem não o comemora.

Pouco me importa se não estava nevando na manjedoura, ou se o dia coincide com o aniversário do deus romano Saturno. Meu aniversário também coincidiu com o de Nostradamus, e daí? E quem me garante que o Monge Dionísio não bebia? Pouco me importam as datas, enfim.

O Natal tem relação com a essência, não com a aparência. Comemorando-o, remetemo-nos à nossa própria e original noção de existirmos. Mesmo que o Universo não fosse como hoje o conhecemos, o Natal ainda assim o seria. E existiria um Cristo, vindo em forma própria, resgatando-nos à unidade essencial do Bem.

Assim o Universo se reconstrói, naquele dado Instante, que seja o da ceia ou no tilintar de taças e corações. Natal é pensarmo-nos constituentes de um só Universo, do Bem maior. Só assim conseguiremos nos tornar menos egoístas, mais solidários, mais completos enfim, parte que somos do Todo.

Feliz Natal !!!

São os votos de Joeldo Velôso Holanda e família.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Detectores em Ação

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[Foto: Contador Geiger-Müller portátil, para viagens]




Aqui na Alfândega há que se ter olho clínico para tudo. Pessoas e objetos, estranhos ou não, têm de passar por uma revista minuciosa, antes de ingressar pelas fronteiras do País. Mas o olho só não resolve. Ainda que sejam os detectores mais perfeitos de que dispomos, os nossos cinco sentidos ainda não são suficientes para dar conta de tantos e tão estrambóticos badulaques que vêm nos infestar a pátria. Sons, luzinhas, cores, cheiros, tudo conta para decidirmos o que passa, e o que fica - em alguns casos, retido em caixas de chumbo.
Isso mesmo. É na costumeira esteira de raios-X que vemos, com reservado olhar, a intimidade das malas e sacolas. Lá vemos passar um pouco da vida das pessoas, sem pudor. Nosso trabalho profissional é detectar, com serenidade e isenção, o que importa à ordem tributária. Mas como estamos em um mundo de tecnologias fantásticas, outros detectores são necessários.
Detectores de metal, de substâncias orgânicas, são essenciais à identificação de armas e alimentos. Tanto uns, quanto outros, têm restrições sérias de importação, consoante regras policiais e sanitárias, respectivamente. Mas os perigos não páram por aí.
Hans Geiger, um cientista adepto do Nazismo, idealizou na década de 1920 um aparelho capaz de detectar radiações ionizantes. Graças ao Contador Geiger, somos capazes de identificar rapidamente substâncias altamente nocivas à saúde humana, por emitirem tais radiações.
Pois bem. Mesmo com todas essas novas tecnologias, as ermelindas continuavam com acesso livre à Alfândega. Também era preciso fazer algo para, rapidamente, identificá-las. Além de altamente nocivas à saude [mental] das pessoas, as ermelindas, por perseguirem fiscais da Alfândega, são consideradas uma ameaça à ordem tributária nacional(*).
Felizmente descobrimos que um outro cientista teuto-holandês, Wilhelm Alexander van Gaiber, em 1975, descobriu acidentalmente que, em uma liga de vanádio, uma corrente elétrica era espontaneamente gerada, todas as vezes que passava perto de seres com um padrão de comportamento peculiar. De fato, ele efetuou testes bem sucedidos com mais de 5.000 mulheres, que tinham em comum o fato de telefonarem mais de 5 vezes ao dia para alguém, contactando também os amigos dessa pessoa, sempre mesclando verdades e as mais absurdas mentiras, de maneira ardilosa e completamente sem escrúpulos, de modo a tentar [na maioria dos casos sem o menor sucesso] arrasar com a vida do dito cujo.
Até hoje não se entende a relação entre esse comportamento e o padrão de corrente elétrica gerado no metal. [À época, ainda não havia sido cunhado o termo 'comportamento ermelindístico', hoje onipresente nos livros de psicologia]. Contudo, nosso inteligente cientista criou um aparelho detector de ermelindas, baseado nesse princípio empírico.
Houve muita polêmica na comunidade científica, até a aceitação do que hoje é chamado de contador de van Gaiber ou contador WA-Gaiber [iniciais em homenagem ao renomado cientista, falecido em 1976, de tédio após um ataque de ermelindas]. Hoje em dia, este utilíssimo aparelho é largamente utilizado em postos de fiscalização e fronteiras, no intuito de detectar ermelindas e seres em geral propensos ao assédio e à auto-execração pública.
Tomem cuidado então, ermelindas, que estão todas detectadas. O contador WA-Gaiber está a postos. Se passarem por aqui, ele apita!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Madrugada

[foto: madrugada na peninsula de Marau - BA]




Há um instante em que se suprimem

Todas as faculdades da alma,

Todo o gozo e o pensamento,

Toda a emoção e a metafísica,

Todo e qualquer som de prenúncio,

E toda a vida


E enquanto o universo se reconstrói

Naquele exato instante,


Um nada se desvela em diálogos infindos,

E as mentes, que não mais eram, se entretêm,

Absortas,


Num espaço de silêncio.




quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Última Passageira

Aeroporto Internacional do Fim do Mundo. [estavam com saudade desse cenário?] Quatro da manhã. Já não se ouvia mais o burburinho de pessoas no Free Shop, gente que até há alguns minutos atrás, trançava pelos corredores como abelhas em uma inflorescência, buscando a sua cota, doce e limitada, de mel.

O fiscal já havia se recolhido e estávamos apenas eu e o operador de raio X, desenvolvendo nossas atividades de fim de vôo.

O silêncio seria total, não fosse a ofegante presença da Última Passageira. Essa personagem é singular. Roupas bem coloridas, decotadas, transparências em lugares estratégicos. Perfume que, acrescido das horas de viagem, ganhou uma medida exata de suavidade. Malas evidentemente abarrotadas. Isso inclui a bagagem natural que as mulheres trazem junto ao corpo, desenhando-o em linhas de ação e reação.

Tudo isso, e eu às voltas com um maldito de um notebook. Sem nota fiscal, sem nota de saída. Nem mesmo uma boa desculpa. E a mulher na minha frente, esbravejando, chorando. E eu tendo que reter. Algumas centenas de reais de imposto, mais ou menos. E a "coitada" não tinha como pagar. [Também pudera, gastou tudo na viagem].

Enquanto eu calculava [ou, pelo menos, tentava calcular] os valores devidos, a mulher não parava de falar. Aquilo me irritava profundamente, mas a minha postura e atitude profissionais sempre falavam mais alto. Respondia a todos os questionamentos dela com polidez e educação. Meu relativo cansaço não me afetava o desempenho - apenas e tão somente a desatenção que aquela mulher gerava em mim.

Naquele momento, ela acha um documento - uma nota de compra - em um valor aceitável, que não superaria a cota. Conferi a nota, o número de série, tudo. Estava tudo OK. O imposto não era mais devido, pois havia sido baseado em uma estimativa, e não no valor real do bem. Ela estava liberada.

Não foi preciso mais que uma fração de segundo apenas. A mulher arregalou todo o verde-perolado dos olhos, em uma felicidade apenas comparável a de um ganhador da Mega Sena. Ao ser comunicada de sua liberação, ela deu um grito - que ecoou retumbante, no salão já praticamente vazio - e um pulo. Aí fez algo completamente inesperado.

- Preciso lhe agradecer de alguma forma!

Assim dizendo, pulou a bancada. Senti o impacto de seus pés no chão, pois tinha um corpo de formas, por assim dizer, pronunciadas. Um passo e meio adiante e ela me prendia nos braços, apertando-me contra si. Tentava me beijar. Foi quando o operador, espirituosamente, interveio:

- Minha senhora, vá com calma que o moço é vegetariano.

Não deu outra. Caímos na gargalhada os três. Dando-se conta do que fazia, a moça largou-me, pedindo desculpas. O perfume dela estava todo em mim. Eu estava trêmulo. O operador estava vermelho de tanto rir. A moça idem, mas de vergonha.

Despedimo-nos, entre risos, desculpas e amenidades. A nós que trabalhamos, convém deixar a libido em casa. Todavia, humanos somos, e essa nossa componente essencial de humanidade é tão eficaz para gerar situações esdrúxulas, quanto incapaz de lidar com elas, quando surgem.

Ainda bem que havia uma muda de camisa na mala que trago para o alojamento - Afinal, ia dar mesmo um trabalhão para remover todo aquele batom que ficou impregnado na gola.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Dama de Ferro

[Montagem: À esquerda e à direita da jovem Margareth Thatcher, respectivamente,
estão as ex-senadoras Heloísa Helena, brasileira, e Hillary Clinton, americana]

Sempre falo sobre as mulheres aqui. Obviamente, sem um pingo de propriedade. Mas falo assim mesmo, afinal é o que penso [se é que sou capaz de pensar algo] e se doer, melhor ainda. É muito bom falar do que amamos, mesmo sem conhecer um milésimo. Amar é um pouco dessa intencional ingenuidade, desse sublime desconhecimento. É mistério, enfim.

A Dama de Ferro é assim. Diz o que pensa. E, muitas vezes, para externar suas emoções, dispensa a verborragia tão cara aos incautos. Ela sabe se expressar muito bem até mesmo - e principalmente - com o silêncio. Com ele, ela transmite todo o mistério de si, encerrado num toque, num olhar. Pede que a decifrem, no simples e misterioso ato de erguer uma flor.

Todo homem, algum dia na vida, já projetou a mulher ideal para si. A minha é assim. Tem o olhar altivo, com a serenidade de quem já tem primaveras a contar, e a doçura de uma menina. Cabelos não a passar em demasia dos ombros, presos com recato, ou comedidamente soltos. Sorriso sério, pois os mistérios de seu coração não estão ao dispor.

Mulher, como já dito, de poucas palavras. Mas sempre atenta a tudo. Aparentemente, parece não dar atenção ao seu amor. Está ocupada com os convidados, as visitas, as obras sociais. Tem seu trabalho, sua vida. Tudo parece distanciá-la. Mas seu amor companheiro sente-lhe o coração próximo, pulsante - e só ele sabe disso. Basta um olhar.

Ela é a mulher dos meus sonhos. Amo-a em demasia. Mas apenas ela sabe disso, mais ninguém.