terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Apenas Zelo, Senhor!

[Foto: Uma calculadora, para lembrar que não existem contas "excessivamente exatas"]






Paulo Navarro e a Loura da Alfândega

Aqui segue um comentário a respeito do texto do colunista Paulo Navarro sobre os procedimentos de uma certa Alfândega real, que não é a Alfândega do Fim do Mundo, mas serve de base e inspiração para os textos aqui postados.

O texto é esse:

http://www.paulonavarro.com.br/2,4,20,1460/detalhe/navarro-sabado-4-de-fevereiro-de-2012.aspx

Minha resposta é essa:

Senhor Navarro, não posso falar pela Alfândega do Aeroporto de Confins. No entanto, posso falar do meu próprio trabalho, e do trabalho da ilustre colega que, em meus textos, codinomeio Adriana. Então, seguem minhas considerações a esse respeito.

Sobre o "Excesso de Zelo"

Esse termo faz tanto sentido quanto falar de "excesso de respeito", ou "excesso de precisão", por exemplo.
O ilustre senhor, como colunista, recebe um salário. O salario é devido ao ato de escrever uma, duas, ou três dezenas de artigos por mês, conforme o contrato que o senhor tem com o seu jornal. Vamos assumir que o seu salário é, por exemplo, R$ 1.000. Ora, se o pessoal do setor de pagamentos do jornal, ao final do mês, resolve lhe pagar R$ 700, sem motivo aparente, isso evidentemente é falta de zelo da parte deles. O senhor vir a cobrar-lhes o que é de direito, obviamente, não é excesso de zelo. É apenas zelo. Entendeu? Da mesma forma, o jornal lhe pagar, por descuido, R$ 1.300, seria igualmente falta de zelo. O senhor não devolver a quantia paga a mais, nesse caso, seria uma igual falta de zelo da sua parte. Porém, se a devolver, aí sim, será zeloso (e não "excessivamente zeloso") para com o jornal. É assim que trabalhamos, portanto. Assim como o salário é pelo trabalho, o imposto é pelo ingresso do bem, conforme seu valor. Sem falta de zelo, se assim o quiser, mas nunca com excesso dele, uma vez que tal coisa não faz sentido.

Perua versus peruas

Segundo a lei atualmente em vigor, existe um limite de isenção de US$ 500 para compras que os passageiros trazem do exterior, via aérea. Ora, se alguém trouxer uma bolsa Luis Vuitton de US$ 4.000, obviamente, terá de pagar imposto sobre os US$ 3500 que excederam a cota. E, para tanto, nada melhor que alguém que sabe distinguir uma bolsa Louis Vuitton verdadeira de uma falsificação barata. Assim, nossa perua está lá para zelar pela lei que alguma passageira ou passageiro, perua ou não, eventualmente venha a tentar transgredir.
[A propósito, falsificações têm sua importação proibida, segundo a mesma lei. Lei que não temos poder para modificar diretamente, mas para cujo autor existe um punhado de gente (que inclui a mim e a você) que tem poder para colocar e tirar do poder, mediante o voto.]

Conhecimento versus esnobação

Caro senhor. Se eu comprar um computador iMac, por exemplo, o lojista me informa que se trata de um iMac, eu pago por um iMac e pego o recibo de um iMac. Se eu digo ao fiscal que se trata de um monitor branquelo gigante de 27 polegadas, quem está tentando esnobar quem? Se o fiscal retruca dizendo que se trata de um computador pessoal da empresa americana Apple, onde ele está esnobando conhecimento? Em dizer algo que o passageiro já sabia e "esqueceu", no exato instante em que passava pela aduana? Caro senhor, sou formado em Ciência da Computação e trabalho na área há cerca de 25 anos. Se consigo distinguir um computador de outro, por inspeção visual, isso é apenas parte do meu trabalho. Se ele estiver queimado, posso distingui-lo pelo cheiro. No caso da colega Adriana, formada pela universidade da moda, o mesmo vale para perfumes, ou lençóis de trezentos ou quinhentos fios. Sem esnobação. Mais uma vez, apenas zelo. Nosso trabalho é assim: uns ajudam os outros, conforme a especialidade. E o passageiro cumpridor da lei sai ganhando, pois ele não passa nenhum tipo de "pesadelo". Pesadelo passa quem sonega imposto, assim como quem não paga suas contas em dia.

Talvez ainda haja uma parte da elite que se julga acima da lei. A essa elite, só tenho a dizer que aqui, fazemos cumprir a lei, para os ricos e para os pobres, com absoluta imparcialidade [E não "excesso de imparcialidade".]

Só para constar, um número cada vez maior de passageiros opta por desembarcar em Confins, conforme estatísticas da Infraero. Um número cada vez crescente de passageiros honestos e zelosos, e por quem temos um grande respeito e tratamos com absoluta cordialidade. [E não "excesso de respeito" ou "excesso de cordialidade".]

É isso aí.

12 comentários :

Lygia disse...

Olá!!!!! Muito feliz por ver novamente a Alfândega com vida!!! Li o comentário do Sr. Paulo Navarro ao qual se refere. Gostaria muito de ver o parecer desse colunista depois de ler seu texto. Será que consegue entender que aquilo que chama de comportamento esnobe é apenas parte de um trabalho feito com o zelo de um bom profissional?
Como sempre você foi impecável. Parabéns!!!!
Lygia

joeldo disse...

Cara Lygia, obrigado pelo seu comentário.
É sempre bom obtermos diversos pontos de vista sobre um assunto.
Do ponto de vista das colunas sociais, a alfândega é a "vilã da elite", que quer fazer suas compras no exterior sem ser incomodada. Vale lembrar que existe uma legislação a ser cummprida, e que precisamos de respaldo institucional para fazê-lo, a despeito de uma pequena parcela de pessoas que insiste em querere estar acima da lei.
Beijos,
Joeldo

Unknown disse...

Arrasou, Joeldo. Duro é que uma resposta que deveria ser institucional, a RFB respondendo a um palpite infeliz de um puxassaco de madama, fique restrita a iniciativas como a sua. Abraço do Augusto.

Carol Araújo disse...

O comentário foi infeliz Sr Paulo Navarro, pois os nossos impostos que pagam os salários dos auditores, que zelam para que cidadãos não burlem a lei e deixem de pagar impostos que servem para o benefício da sociedade.
Comentário infeliz e a auditora em questão é conhecedora de lojas de grifes sim e compara-la a Val é um crime, porque a cidadã citada e anencefala, a auditora têm qi bem elevado.

joeldo disse...

Prezada Carol,

Obrigado por sua pertinente observação.
Creio que, num mundo ideal, os impostos são revertidos, em sua totalidade, em benefício da sociedade. Não vivemos em um mundo assim, bem sabemos. Porém, isso não pode servir de motivo para nos furtarmos às nossas obrigações enquanto cidadãos de bem.
Isso vale tanto para os funcionários da Receita, quanto para a sociedade como um todo.

Joeldo

joeldo disse...

Caro Augusto,

Grato por suas palavras.
No meu entendimento, a RFB não pode se furtar ao seu dever de responder institucionalmente ao colunista. O que temos aqui é uma resposta pessoal, como colega de profissão da auditora em questão e que reconhece a seriedade do trabalho da mesma. Vamos cobrar e aguardar o pronunciamento da Casa, portanto.

Abraços,
Joeldo

Rosana Amaral Carlo disse...

Olá Joeldo,
É com grande satisfação que faço o meu primeiro comentário aqui na alfândega.
Li o texto do Sr. Paulo Navarro ao qual ele faz críticas a conduta profissional de sua colega e se refere a ela com ‘a loura da alfândega’.
Eu diria a este senhor que ainda bem que existem bons profissionais com ela, que agem com ética, zelo e dinamismo. Sim! dinamismo, porque hoje em dia dada a complexidade e a gama de produtos existentes, requer do profissional de uma aduana uma dinâmica extra, ou seja, se a colega conhece grifes, sabe distinguir lençóis de 500 e 700 fios e possui uma sensibilidade olfativa aguçada, excelente!! Isto demonstra o quanto ela evoluiu como profissional e deve servir de exemplo para outros.
Agora, se algumas passageiras andam esquentando suas cabeças com isto e pensando em fazer alfândega em outras capitais, provavelmente devem estar tentando burlar a lei para levar vantagem.
Eu, como cidadã e profissional da área de comércio exterior, espero que cada vez mais os recintos alfandegados sejam mais rígidos na fiscalização, valorizando assim o cidadão honesto que paga seus impostos e sabe acatar e observar as normas e procedimentos impostos pela lei.
Parabéns Joeldo pelo seu brilhante texto. Grande beijo!!!!
Rosana Amaral Carlo

joeldo disse...

Cara Rosana,

Grato por comentar.
Na Alfândega, cada um contribui com a sua área de conhecimento: um entende de computadores, o outro de bicicletas, a outra entende de moda... E por aí vai.
O que incomoda às elites, é saber que alguém, que não faz parte delas, conhece tanto das "coisas boas da vida" quanto elas. E o faz com seriedade e profissionalismo, pelo compromisso que tem com o seu trabalho.
Assim, a pretensa "superioridade" dessas elites não serve mais para enganar os profissionais que estão ali.
Daí reações absolutamente irracionais, como a do colunista.

Beijão
Joeldo

Jussara Veloso disse...

Caro Joeldo, acompanho sempre o seu blog e quero te parabenizar pelo excelente conteúdo de seus comentários.
Sobre o comentário do colunista Paulo Navarro sobre a “loura da alfândega”, este me chocou. Fico imaginando quão antigo é alguém que supostamente tem influência sobre seus pares (elite), comentar tão jocosamente de quem faz seu trabalho com respeito pela coisa pública. Se todos os funcionários públicos tivessem o zelo, responsabilidade, retidão e prontidão para o trabalho como a ”loura da alfândega”, o Brasil certamente seria um lugar melhor para se viver; teríamos no mínimo um lugar mais justo, nenhum escândalo de mensalão ou outros tantos que costumam permear nossos jornais diários. Causa-me estranheza a contra-mão do Sr. Navarro ao incitar desvios de conduta dos operadores da nossa alfândega, para permitir benesses a poucos, sim, poucos os brasileiros tem oportunidade de viajar e muito menos comprar no exterior. VIVA A "LOURA DA ALFÂNDEGA” e a todos os seus pares, que se orgulham de zelar pelo bem público, porque entendem a real dimensão de suas atividades na construção da justiça social.

ROSE MARX disse...

Oi Joeldo.
Faço minhas as palavras da Lygia. Que bom ver que o blog Alfândega do Fim do Mundo ainda pode ser palco das tuas manifestações.
Sabe que eu não conheço as procedências de uma alfândega, mas estou aprendendo um pouco com você. Por um lado isso é bom, pelo menos eu nunca me senti no direito de criticar o trabalho dos profissionais da Receita.
Sim, porque acredito que quando se está diante de um profissional que tenha zelo pela lei, sempre aparece aquele lado brasileiro, esperto, querendo justificar o injustificável e remediar em benefício próprio.

Bom, pelo que li no texto concluí que o Sr Paulo Navarro está repassando um comentário que ele ouviu de outras pessoas, mas ele mesmo nunca esteve frente a frente com a vítima da sua crítica, ou seja, ele não ouviu a outra parte como deveria ser procedimento correto em sua profissão.
Por outro lado, aqui está um texto escrito por alguém que convive com a Adriana e sabe como é a rotina da alfândega, portanto, de cara, é ponto pra você Joeldo.

Achei fantástica sua justificativa sobre o motivo que faz com que os agentes da receita tenham tanta segurança em reconhecer um caso de fraude a moda brasileira.
Ficou bastante claro pela tua colocação que os profissionais da receita seus colegas de trabalho, não são apenas pessoas que entraram na instituição para ter carreira estável, sim, porque a ideia que se tem dos profissionais de grandes instituições é essa, e acredito que o Sr Paulo Navarro deva ser da citada opinião também.
Pela tua ótica Joeldo, para ser um profissional que tenha zelo pela lei e ter segurança na hora de aplicá-la, é preciso ter bagagem profissional, conhecimento, coerência, e até um certo gosto refinado como o da tua colega “A Lady da Alfândega”.

Agora faz sentido todas as perguntas que meus colegas músicos aqui de Minas Gerais me fazem quando cito você como um amigo da alfândega de Confins.
Eles sempre me questionam o motivo pelo qual seus instrumentos ficam na alfândega.
Com certeza é porque estão ilegais, mas, agora fiquei curiosa Joeldo.
Imagino então que, além de você, tenha algum colega teu de trabalho, em Confins, que reconhece de longe que uma trompa é Yamaha ou alemã de um modelo plus e o passageiro insiste em dizer que é uma Weril, anos 90, bem conservada, de uso próprio e que ele levou para fazer um mega concerto no exterior e está apenas tentando retornar, rss

Parabéns pelo texto Jô.
Um presente.
Espero ansiosa pelos próximos textos.

Beijos

Rosemary Figueiredo

joeldo disse...

Cara Jussara,

Obrigado por seu comentário.
Sua manifestação fica aqui como um alerta, um convite à CIDADANIA. Espero que o Sr. Navarro e seus leitores, bem como as personalidades em geral que frequentam as suas colunas sociais, consigam entender o significado dessa palavra tão frequentemente citada, porém tão raramente praticada.

Joeldo

joeldo disse...

Cara Rosemary,

Grato por suas observações.
De fato, a Receita Federal como órgão de controle, muitas vezes, se depara com situações em que o contribuinte tenta ludibriar o Fisco, no intuito de obter vantagem.
No tocante à música, eu, em particular, defendo que instrumentos musicais, a exemplo do que já ocorre com os livros e periódicos, deveriam ter imunidade tributária.
Porém, isso é apenas uma opinião particular minha.
Instrumentos musicais sem documentos que comprovem a sua regular importação, sob a égide da lei atual, são passíveis da incidência de tributos ou pena de perdimento, conforme a situação em que se encontram.
Isso deve ter sido constatado pelos amigos a quem se refere, quando estiveram na Aduana com equipamentos nas situações descritas.

Beijos,
Joeldo