domingo, 4 de julho de 2010

Perguntas Padrão. Respostas, Nem Tanto...

[foto: passaporte americano, aos pés de uma jovem cidadã]


Numa Alfândega, estamos dispostos a perguntar sempre. E as perguntas podem ser as mais indiscretas possíveis. Paciência, é a lei que manda. É mediante as perguntas certas que conseguimos identificar a situação de um passageiro que ingressa no País e seus direitos. Assim, evitamos injustiças, tais como a tributação dos bens pessoais de um passageiro em mudança definitiva ou ingresso temporário, por exemplo. Então, temos sempre um leque de perguntas padrão a fazer.

As respostas, porém, é que podem ser as mais inusitadas, maliciosas ou até ameaçadoras. Tudo depende do tipo de gente que vem passar as malas por aqui, bem como do humor em que estão. Vou dar um exemplo. Uma pergunta muito comum é:

- Há quanto tempo você está nos Estados Unidos?

Se essa pergunta encontra um brasileiro residente nos EUA, a resposta varia conforme o sexo do passageiro:

- Eu moro lá. (Homens)

- Eu mooooooro nos Estaaaaados Uniiiidooossss!!! (Mulheres)

E o porquê de uma resposta com todas as vogais longas? Não tenho ideia. Talvez o espírito de competição, inerente às mulheres, as faça ostentar a cidadania como quem exibe uma joia ou uma arma. Isso deve explicar o tom da resposta, que tem um quê de esnobe e soa até levemente ameaçador. Parabéns, cidadã americana. Porém, lamento informar que você está no Brasil. De agora em diante, são as leis daqui que terá de cumprir, o tempo todo, até que resolva ir embora. Senão leva uma multa, ou vai em cana, dependendo do que aprontar.

Mas não é essa a resposta que dou. Simplesmente repito a pergunta...

- Há quanto tempo, senhora, está nos EUA? Desde que nasceu?

- Não. Moro lá há vinte e dois anos. Mas sou cidadã americana!

Peço o passaporte. Geralmente, a maioria das cidadãs valadarense-americanas cai em si neste ponto. Algumas, no entanto, insistem em balançar a cadernetinha azul-marinho, com a águia estampada na capa. Prossigo, na minha luta incansável para informar a elas próprias onde estão.

- A senhora por acaso está ilegal no país? - Pergunto com um ar ingênuo, folheando o passaporte americano da moça.

- Ilegal? Como assim? Impossível! Como o senhor pode afirmar um absurdo desses? Eu sou cidadã americana! - Esperneia a cortesã, como se o cobiçado título a salvasse de todos os perigos e a inocentasse de todos os pecados.

- Não estou afirmando nada, apenas perguntei. Acontece que este seu passaporte não tem visto. Cidadãos americanos necessitam de visto para entrarem no País. É a lei da reciprocidade, senhora. Já que nós precisamos do seu visto para entrar lá, vocês também precisam do nosso para vir cá.

- Mas eu tenho passaporte brasileiro! Entrei na imigração como brasileira! - Neste momento, a esnobação começa a dar lugar à razão. A moça se reapresenta como made in brazil. Aparece o passaporte correto. Desperta, enfim, a incauta transeunte.

- Ah... Então a senhora é brasileira... Muito bem... Seja bem vinda!

Aqui na Alfândega não fazemos distinção de países, nacionalidades. Nenhum passaporte é privilegiado ou abre mais portas o que o outro. Mas se não for o brasileiro, pode ser que seja necessário o visto... Senão não entra mesmo.

10 comentários :

Lygia disse...

Olá Joeldo!!!!

Muito bonito o novo visual da Alfândega!!!!
Entendo que seu trabalho deve ser feito e as leis cumpridas... até aí tudo certo. Mas coitadinhas das "mocinhas". Os EUA deslumbram algumas espécies de pobres mortais. E às vezes, a gente por aqui mesmo,se confunde e se acha no direito de estar em lugares que apesar de não pagar impostos não são nossos... ainda bem que sempre tem alguém da Alfândega prá nos abrir os olhos!!!rsrsrs

Adorei... como tudo o que vc escreve.

Beijos

Tatiane MG disse...

Adorei o texto Joeldo! Divertido imaginar esta cena na alfandega e principalmente...a expressão da passageira ao lembrar-se do seu lugar de origem!!!
Perdoe a ousadia, mas tenho que discordar de vc quando diz que o espírito de competíção é inerente às mulheres. Na minha opnião competição é uma característica muito mais marcante nos homens. As mulheres apenas reagem às ameaças, de maneiras mais inesperadas possíveis, outras nem tanto!
Se me permite te dar um conselho...NÃO PARE DE ESCREVER NUNCA! Vc tem uma relação muito especial com as palavras!
Parabéns pelo texto!
Beijos!

joeldo disse...

Lygia, anjo querido,
É muito difícil para um brasileiro qualificado consguir um emprego graduado nos EUA.
Assim, os EUA deslumbram apenas aqueles que não têm formação, ou algo que os capacite a ter bons empregos por aqui mesmo.
Como resultado, vemos a soberba desses indivíduos, a qual é filha legítima da ignorância deles.
Beijos!

joeldo disse...

Tatiane,
Eu tenho orgulho de ser brasileiro, cidadão de um país que, a despeito das suas mazelas, não manda matar milhões de inocentes por causa de petróleo, entre outras atrocidades.
Mas há quem se orgulhe, e até mesmo negue-se a pisar no chão, por já ter pisado lá.
Durma-se com um barulho desses.
Vou tentar escrever sempre.
Beijo grande
Joeldo

joeldo disse...

Lygia, anjo querido,

É extremamente difícil para a maioria dos profissionais graduados conseguir emprego nos EUA.
Os imigrantes que serviram àquele país executavam tarefas simples.
Os EUA eram um atrativo principalmente por terem dado oportunidade a pessoas assim, que não tinham muita educação ou qualificação profissional. A soberba que trazem talvez seja apenas a ignorância que daqui levaram, devidamente transformada.
Beijos!
Joeldo

Tatiane,
Em muitos ambientes de trabalho onde convivi, percebi que, onde as mulheres predominantemente competem, os homens colaboram. As exceções foram minoria. Talvez isso tenha alguma razão evolucionista, não sei. Mas prefiro lugares onde todos colaboram, homens e mulheres.
Fico feliz que tenha gostado do texto. Vou tentar continuar escrevendo.
Beijo grande
Joeldo

joeldo disse...

Renato!
Não se preocupe meu caro, porque Anjo aqui na Alfândega só tem um, a Lygia Bovo, educadora e também blogueira como eu.
Fico feliz que tenha gostado do meu texto, venha mais vezes!
Abração!
Joeldo

Ana Claudia disse...

Putz, só pra tirar o visto é uma chatice. Bjs

Katia Cristina disse...

Olá Joeldo,
Adorei a nova cara do blog, está o maximo. Seu texto que delicia de ler, e que saudades você nos deixa quando não escreve. Essa alfandega faz uma falta... Todos somos iguais, independentes de nossa nacionalidade, mas tem alguns que se acham não é? eu sou brasileira e tenho muito orgulho disso e pobre é quem sente a necessidade de assumir uma outra nacionalidade que não a sua, são dignos de pena.
Beijos lindo, saudades......
Você tem morada cativa em meu coração.

Mari Amorim disse...

Uma grande realidade abordada aqui,pertinente a data comemorativa deles.Parabéns!Pelo texto,pelo visual do blog,essa grande e inteligente Alfândega merece
Boas energias,sempre!
Mari

Rolando disse...

ola. tudo blz? estive aqui. muito legal. apareça por lá. abraços.