segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Passageiros de Elite

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[foto: personagem burguesa do filme Tropa de Elite]


Levo uma vida simples. Não tenho muitas posses; meu carro é simples; guardo apenas o suficiente pra garantir uma vida sem sobressaltos. Tenho, enfim, um salário digno, posto que consigo viver dentro dele. Poderia habitualmente viajar para o exterior, mas não sinto vontade. Fá-lo-ia caso houvesse uma necessidade específica, como executar algum serviço, fazer um curso, ou aprender uma nova língua.

Aqui no blog, já dei alguns exemplos de pessoas que viajam para o exterior, e se valem desse hábito para se distinguir dos outros, como elite social. E pior - assim devidamente distinguidos, julgam ter algum tipo de privilégio em relação aos demais, ditos não viajantes, e por conseguinte, não participantes da elite.

Sinceramente, não faço a menor ideia de onde tiraram essa bobagem.

Na Alfândega, somos todos viajantes. Há voos internacionais quase tão baratos quanto uma passagem Belo Horizonte - São Paulo. Em tese, qualquer assalariado poderia bancá-los. As elites, porém, se consideram acima das leis, do bem e do mal, por estar portando um bilhetinho que custou algumas centenas de reais. Haja paciência. Na sua cegueira e arrogância, falam mal do Brasil, esquecendo que foi neste país que obtiveram a riqueza que gastaram lá fora. Voltam cuspindo cobras e lagartos, como se se maldissessem pelo simples fato de morarem aqui.

E é nesse momento que meus ouvidos se transformam em autênticos porta-joias, tantas são as pérolas que vêm abarrotá-los, vindas dos nossos queridos Passageiros de Elite:

- "Vocês não têm é condições de viajar, por isso ficam aí fiscalizando !"
[Claro que temos condições, querido passageiro. Basta tirar férias. Não estando em serviço, somos indistinguíveis de vocês.]


- "Eu tenho condições de comprar e trazer o que eu quiser!"
[Então trate de ter, também, condições de pagar o imposto.]


- "Agora vocês vão arrumar minha mala!"
[Cara passageira, somos seus fiscais, não seus assistentes. Aqui fazemos uma justa divisão de tarefas. Nós desarrumamos a sua mala, e você a arruma. Aliás, se tivesse pedido com jeito, poderia até tê-la ajudado, e com prazer.]


- "Você não sabe que essa rua fica no bairro tal? Eu moro na Zona Sul, meu filho."
[Prezada passageira, se seus filhos são presidiários de um apartamento no asfalto da zona sul, o problema é todo seu. Não sou funcionário dos Correios. Tenho a mera missão de anotar seu endereço, para que seja devidamente rastreada, caso venha a burlar o Fisco.]


- "Vivo sendo parado na Alfândega! Só no Brasil mesmo uma coisa dessas! Aqui não é um país sério!"
[Há quem considere que o Brasil não é um país sério, mas a nossa fiscalização aduaneira funciona. Então, vá procurar a falta de seriedade do nosso país em outros lugares, não aqui.]
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11 comentários :

Mari Amorim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joeldo disse...

A ideia era essa mesmo, Mari,
tentar ser conciso, sem ser omisso,
Beijos e obrigado
Joeldo

aminhadocepink disse...

Como será que essa “Elite Social” se comporta em outras Alfândegas?
Como será que são tratados em outros solos?
Quantas perguntas esse texto fez pairar em minha cabeça.
Não suporto quando criticam minha Pátria, a nação que me abriga, que me deu uma família digna, amigos encantadores, condições de estudar e trabalhar, ora pá!!!
E acho que posso fazer este desabafo com muita liberdade, sou brasileira porque meus pais nasceram aqui, porque são filhos de portugueses e italianos que aportaram por aqui e se misturaram com os nativos, os índios! Povo não menos digno, pois para sobreviverem, iam à caça, plantavam e cultuavam a natureza com o respeito que ela merece. Outra coisa que me irrita muito também é o termo “terra tupiniquim”...ora ora ora, tenho o maior orgulho de ter meus olhos puxados e, ao mesmo tempo um certo desconforto por ter noção que os lusitanos cá vieram explorar.
Não amo esta pátria só por ter nascido no dia de sua bandeira, mas porque acho que somos guerreiros (como quem? – quem caçou, pescou e plantou) e confiamos (com o pé meio atrás) em quem faz da imagem do nosso país ser essa, de “povinho”. Sem esquecer do povo africano e suas princesas, escravizados por aqui.
Ah, desculpe pelo desabafo, não gosto de injustiças, com a pátria e nem com quem está desenvolvendo seu trabalho com respeito e dignidade.
Belo texto! Será que a “Elite social” conhece bem todas as nossas riquezas? A luta dos brasileiros do Amazonas para sobreviver? Dos brasileiros subordinados aos coronéis? Aiii será que estou tão fora da realidade? Que tudo mudou e não percebi....é melhor parar aqui. “Salve lindo pendão da Esperança”
Beijo na Alma Brasileira vindo da Holanda...rs

joeldo disse...

Lisete,
Em outras terras, os tais da Elite são tão estrangeiros quanto nós.

Só aqui mesmo é que se sentem os donos da terra.

Falam como se a nossa existência estivesse subordinada à deles. E quando falam mal daqui, julgam-se cidadãos do mundo, esquecendo-se da viseira lateral que puseram à cara, e que não lhes permite ver mais que os próprios umbigos.

Obrigado pelo pensamento em forma de comentário. Reflete com fidelidade o meu e, tenho certeza, o de muitos aqui.

Beijão
Joeldo

Laura disse...

Quando você me conta as coisas que acontecem nessa Alfândega chego a ter ódio da pretensão, da arrogância, etc, dos seres humanos que se acham livres de qualquer castigo de Deus por serem como são, por humilharem outros seres humanos, por se acharem melhores que todos só pelo fato de terem grana. Este texto então... nem se fala, ferveu o meu sangue. Fique tranquilo querido, pois nós, pessoas simples, como você mesmo se descreveu, SOMOS MUITO MAIS FELIZES, do que estas pessoinhas vazias de tudo, pobres de espírito, que pensam que quando morrerem irão levar junto todos os bens materiais que conseguiram em vida, muitas vezes à custa da exploração de pessoas humildes, honestas e honradas.
Beijo grande.

joeldo disse...

Laura,

Não precisa se indignar com essas pessoas.

A Alfândega é um lugar hostil para esses tais porque lá é um dos poucos lugares onde eles não estão rodeados de vassalos.

Nossa indiferença, portanto, é tudo que merecem.

E o cumprimento da lei, sempre. Tanto para eles quanto para os demais, sem distinção de raça, credo, ou conta bancária.

Beijos
Joeldo

aminhadocepink disse...

Que estranho, postei um comentário e não aparece aqui!! Não foi aprovado? Espero que este dê certo.
Concordo com Laura, as maiores riquezas que nós simples mortais temos são, a humildade e a felicidade.
beijos

joeldo disse...

Lisete, concordo com você.
Nossas maiores riquezas são essas.
Todos os seus comentários têm sido aprovados, à exceção daqueles que tive a impressão que não gostaria que fossem. Pelo jeito me equivoquei, ou assim fez o sistema.
Envie-me um novo email com a mensagem e será publicada, não importa o teor.
De você, tudo é bem-vindo.
Beijos
Joeldo

Angelica Amorim disse...

Mt 23:27 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!

Só quem teve a infelicidade de se deparar com fariseus conhece plenamente esta frase de Jesus, diante da convivência com pessoas materialistas, carnais e hipócritas, pessoas que só se preocupam com o exterior, com a aparência em detrimento da essência, se houver aparência já é perfeito e agradável aos olhos destas pessoas, ainda que o interior abrigue imundícia e sujeira.
Estas pessoas a quem Jesus refere-se, não preocupam-se com a alma humana, nem são capazes de discernir as torpezas e corrupções do homem, pois se apegam ao que veem , julgam e condena um todo, se a aparência lhes agride a visão sai excomungando e difamando, pois não se importam em avaliar o coração.Não é só na Alfândega que acontece isso,na USP e na
PUCSP,faço questão de citar publicamente.(desabafo de aluna de ambas).
Enfim como diz minha mãe, Nunca perca a essência,filha(Valores)
Obrigado,pelo espaço.
( perdoa,tá pauleira... três)
Beijos,papi
Gékila

FILHOS DA PUC disse...

Joeldo,
Adorei o texto, e concordo com a Angélica,(estamos na biblioteca juntas)e compartilho com mesma opinião.A coisa chega a ser insuportável.Nossa,muito bom.


PS.meu email para o caso Ermelinda é:veraluciaiboshi@gmail.com
só para coordenadas,irei mandar meu relato.
beijos ,amigo
Verinha

joeldo disse...

Angélica,

Esse texto tem gerado comentários indignados. Realmente os fariseus são de lascar.

Mas na Alfândega recebemos montes deles, e ainda temos que tratá-los bem. É a vida.

Agradeço pelo desabafo, só vem a enriquecer essa discussão tão espinhosa.

Beijão
Joeldo


Vera,

Agradeço a colaboração e aguardo o seu relato. Meu email / MSN estão no meu perfil, pode usar e abusar ;)

Beijos
Joeldo