
Gosto da vivacidade com que Magalhães descreve certas imagens. Experiente, sabe lidar com situações que são tão corriqueiras quanto adversas. É é assim que nos conta: com brilho no olhar, barba bem aparada e cabelos que denotam a extensão da sua juventude. São casos comuns e tristes, mas que também fazem parte do dia-a-dia de uma Alfândega. Eu e Adriana, fiscal novata na área, escutamos com atenção.
Pôr do sol de um dia qualquer. Recebemos um telefonema da transportadora. Uma urna nos espera. Sentimos uma tristeza que não é nossa. Chega, ansiosa, a família, para receber quem já se foi. É quando acontece o primeiro impacto: Seu ente querido não é mais um passageiro. Os idos, quando chegam, o fazem pelo terminal de cargas. E é extensa a caminhada até lá.
Chegamos ao terminal. Empilhadeiras, carros e caminhões parecem ignorar o caráter solene do momento. Mandamos parar as máquinas. A família chega em seguida, triste como era de se esperar, mas também esbaforida, faminta. Vinda, em muitos casos, do interior na véspera, tendo amanhecido e passado o dia ali.
Chegamos, então, até o corpo. Urna lacrada. Lançamos um olhar básico, discreto. Verificamos a documentação. Tudo em ordem. Liberamos, enfim. Há mortos que passam semanas até a volta ao país natal, devido às dificuldades com o transporte. Na maioria dos casos, as condições não são nada favoráveis: Se a família não dispõe de recursos, o governo estrangeiro fornece uma urna de alumínio padronizada, feia. Mas o pior de tudo é o uso político.
Originários de algum micromunicípio do interior, em muitos casos os próximos do defunto contam com a pseudoajuda das autoridades locais. E é aí que fazem a festa com o sofrimento alheio. Vereadores, assessores de prefeitura e câmara e, muitas vezes, os próprios prefeitos vêm calcar-lhes as costas, fazendo de palanque o que deveria ser um esquife. Assumindo a responsabilidade pelo transporte do féretro, sentem-se no direito de proferir discursos intermináveis, em busca de votos, como se a dor da família não bastasse.
Despedimo-nos, então, da família, transportadores, despachantes. Todo mundo com um ar solene, quase ensaiado. É um alívio, para os que reconhecem o costume último de enterrar-se os que já partiram.
Magalhães termina a história, com o mesmo sorriso de antes. Vou descansar antes do voo das 3 da manhã. Adriana vai para a sala do registro, onde se declaram os bens levados na saída. O aeroporto parece propositadamente vazio. Todas aquelas histórias ainda parecem impressionantes para nós, novatos. Adriana não estranha o silêncio na sala. Passa pelo balcão, leva um café para a copinha. Requenta-o no microondas. Na volta, porém, algo no balcão a deixa paralisada:
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh !!!
Eram apenas três passageiros, que entraram na sala sem fazer nenhum barulho. Eles riem. Adriana se recompõe. Rimos de tudo, enfim. É a nossa vida, penso.
Pôr do sol de um dia qualquer. Recebemos um telefonema da transportadora. Uma urna nos espera. Sentimos uma tristeza que não é nossa. Chega, ansiosa, a família, para receber quem já se foi. É quando acontece o primeiro impacto: Seu ente querido não é mais um passageiro. Os idos, quando chegam, o fazem pelo terminal de cargas. E é extensa a caminhada até lá.
Chegamos ao terminal. Empilhadeiras, carros e caminhões parecem ignorar o caráter solene do momento. Mandamos parar as máquinas. A família chega em seguida, triste como era de se esperar, mas também esbaforida, faminta. Vinda, em muitos casos, do interior na véspera, tendo amanhecido e passado o dia ali.
Chegamos, então, até o corpo. Urna lacrada. Lançamos um olhar básico, discreto. Verificamos a documentação. Tudo em ordem. Liberamos, enfim. Há mortos que passam semanas até a volta ao país natal, devido às dificuldades com o transporte. Na maioria dos casos, as condições não são nada favoráveis: Se a família não dispõe de recursos, o governo estrangeiro fornece uma urna de alumínio padronizada, feia. Mas o pior de tudo é o uso político.
Originários de algum micromunicípio do interior, em muitos casos os próximos do defunto contam com a pseudoajuda das autoridades locais. E é aí que fazem a festa com o sofrimento alheio. Vereadores, assessores de prefeitura e câmara e, muitas vezes, os próprios prefeitos vêm calcar-lhes as costas, fazendo de palanque o que deveria ser um esquife. Assumindo a responsabilidade pelo transporte do féretro, sentem-se no direito de proferir discursos intermináveis, em busca de votos, como se a dor da família não bastasse.
Despedimo-nos, então, da família, transportadores, despachantes. Todo mundo com um ar solene, quase ensaiado. É um alívio, para os que reconhecem o costume último de enterrar-se os que já partiram.
Magalhães termina a história, com o mesmo sorriso de antes. Vou descansar antes do voo das 3 da manhã. Adriana vai para a sala do registro, onde se declaram os bens levados na saída. O aeroporto parece propositadamente vazio. Todas aquelas histórias ainda parecem impressionantes para nós, novatos. Adriana não estranha o silêncio na sala. Passa pelo balcão, leva um café para a copinha. Requenta-o no microondas. Na volta, porém, algo no balcão a deixa paralisada:
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh !!!
Eram apenas três passageiros, que entraram na sala sem fazer nenhum barulho. Eles riem. Adriana se recompõe. Rimos de tudo, enfim. É a nossa vida, penso.