Já passamos de oitenta dias da reforma ortográfica. Isso mesmo, nossa ortografia foi reformada. Para quem não sabia, não precisou mais que um decreto presidencial para que mudássemos a nossa forma de escrever. Foram mudanças leves, afinal, porém importantes. Escondem, no entanto, um problema muito mais grave. São o analgésico leve, ministrado ao doente terminal.
A ortografia é como uma jiboia. Está ali, à espreita, na antessala dos nossos projetos, sempre esperando para nos dar o bote, fazendo-nos errar feio. E ela tem ótima pontaria. Não há quem dela escape. Não tenho a menor ideia de quantos erros cometo. Tudo que sei é que, depois das mudanças, cometê-los-ei com mais frequência ainda.
Por exemplo: somente no parágrafo anterior, quatro palavras tiveram sua grafia modificada pela reforma. São elas: jiboia, ideia, antessala, frequência. As duas primeiras perderam o acento; a penúltima, o hífen; a última, por seu turno, perdeu o esquecido e quase imperceptível trema. Do ponto de vista do português de Portugal, algumas palavras também mudaram. Projeto e ótima assumiram a forma brasileira, antigamente grafada pelos nossos contemporâneos lusitanos como projecto e óptima.
Poderia aproveitar o ensejo e falar que a língua portuguesa perdeu beleza, graça, entre outras coisas. Faria todo o sentido para mim, afinal eu gostava muito do trema, por exemplo. Parece que a frequência, sem ele, não é tão frequente assim. A falta dos acentos em ideia, tramoia, já ausentes há muito no português de Portugal, leva à tendência de lê-los com vogal fechada, como se lê em esteio, por exemplo. Mas isso tudo é bobagem. Só quem vai ter problema com isso são as crianças, que infelizmente não vão conseguir distinguir as duas formas, de início. Mas as crianças são muito mais espertas do que nós, e tiram isso de letra. Nós é que temos um problema muito mais grave para resolver.
Falar em reforma na ortografia parece patético, quando estamos em um país que não sabe escrever. Vocês já pararam pra imaginar a quantidade de pessoas que se dizem formadas, com curso superior nisso ou naquilo [e, de fato, o são], porém escrevendo coisas como geito, menssagem, excessão? O que aconteceu com o ensino da língua em terras brasileiras, afinal?
Não sei responder. Quem tem curso superior, hoje em dia, não pegou o tempo da aprovação automática, por exemplo. Depois da aprovação automática [ou qualquer nome bonito que venham dar a isso] ter sido aprovada nas escolas públicas, nem sei mais o que esperar. Talvez me contente em ver as pessoas escreverem mais em miguxês do que em português.
Não sei se é a mídia que desincentiva a leitura [e a Internet não está inocente nesse caso], mas o fato é que as pessoas parecem estar desaprendendo a cada dia. A leitura por prazer é desmotivada, quando as escolas "obrigam" os alunos a ler um dois "livros de literatura" por semana ou mês. Não tenho as respostas, apenas fica o alerta. A mediocridade está à espreita, não apenas no ensino do português, mas em tudo relacionado a estudo. As pessoas querem passar, querem notas e diplomas, mas consideram desnecessário estudar. Uma avalanche de profissionais de meia tigela está a caminho dos consultórios médicos, escritórios de advocacia, direções de empresas, salas de aula.
A ortografia é apenas um sintoma, uma febre. Nosso doente está em estado terminal e não adianta lhe dar analgésicos. A picada da jiboia é certeira e letal. Precisamos fazer algo.

